sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

Carta de amor e de eutanásia

Amélia,

Espero que esta carta te vá encontrar de saúde que por cá a guerra não deixa que te dê boas notícias.

Estranharás a falta da palavra "querida" antes do teu nome mas reconhecerás certamente a caligrafia. Sou o Janardo, o amigo a quem o teu Bernardo tem ditado todas as cartas de amor que tens recebido.  Sei que também tu és uma analfabeta e peço, por isso, à interposta pessoa que faça guarda do que te vou contar e que, tal como eu sempre faço, tenha com este serviço uma fidelidade inabalável ao dito e ao lido e um voto de segredo tão sagrado como o dum padre confessor.

Bem sabes, das missivas passadas, como é a vida da tropa no inverno das trincheiras mas o Bernardo nunca te disse que, por vezes, as ânsias de sair da podridão são tantas que recebemos com alívio as ordens para uma missão de reconhecimento nas hostes ou mesmo para fazer um avanço com fogo sobre as suas linhas. No passado dia 10 de Fevereiro, eu, o Bernardo e mais dois camaradas partimos, destemidos, para uma dessas arriscadas incursões. Os boches atacaram-nos, os outros dois caíram que nem tordos, o Bernardo ficou desfeito e moribundo mas ainda com vida para me fazer um último pedido.

Eu não fiz nada que não se tenha sempre feito desde que há guerras. Também o rei Saúl, ferido pelos soldados filisteus, ordenou ao seu escudeiro que o trespassasse com a espada. Sei que há bíblias que contam que o próprio Cristo não morreu na cruz mas horas depois, por ordem piedosa de Pôncio ao centurião Longinus que foi ao Calvário e o golpeou para pôr fim à Sua agonia.  Enfim, de golpes do punhal-misericórdia está a História cheia e, se as cegas leis da Igreja ou da República não podem ver o amor com que se pode salvar um mortalmente ferido do sofrimento atroz, a luz de Deus me há-de acolher por tão heróico gesto. Se por acaso assim não for, que o inferno me tenha, que pelo menos lá não passarei o frio da Flandres. 

Amélia, somente a ti devo esta confissão. Li todas as tuas cartas para o Bernardo, escrevi todas as cartas do Bernardo para ti e de tanto ele me contar da sua amada, passei também a desejar uma mulher assim. A morte e o sofrimento nunca deveriam andar juntos mas, se assim tem de ser, que cumpramos os desejos de quem parte. Antes do estertor do nosso amigo, dias antes, no clamor da guerra, ele havia-me feito o seu penúltimo pedido: que se por acaso esta merda - ele disse mesmo, merda - o levasse desta para melhor, conhecendo-me homem de carácter igual ao seu, que eu lhe tomasse o lugar no amor perante ti. Que acto grande este, Amélia, que a igual grandeza nos obriga!

Pode-te ser difícil aceitares-me mas vou dar-te prova de como estou comprometido a resolver o triângulo amoroso: se por acaso quiseres guardar a virgindade, o que eu não acredito, para a levares até aos céus ao Bernardo, para graça do Espírito Santo estou disposto a ser meio José, o carpinteiro e na outra metade, a desenrascar-me como nas licenças aprendemos por aqui, eu e o Leonardo, com mulheres que procurem satisfação, meretrizes ou até mesmo com a mão.

Se me deres tampa, sabe que não terei qualquer remorso, como não tenho daquele tiro que foi, provavelmente, o mais certo que nesta guerra dei. 

Por fim, se hás-de aceitar, que não peças a Deus que eu não regresse à pátria, viril e inteiro, porque se tal vier a acontecer, que morra então. Se não tiver mãos para o fazer, hei-de pedir a alguém, valentes como eu não faltam nesta frente.

Agora sim, Querida
Amélia
Beijinhos do Janardo, basta quereres, teu.


Sou neto de avó solteira e o meu avô Janardo, que andou na guerra de 14, deixou-nos esta carta maravilhosa. Curiosamente, passados alguns anos, ele, que não morreu na guerra, também morreu.


Do espólio do meu avô também
(só faltava que o nome da mula fosse Amélia)

11 comentários:

zambujal disse...

Esta carta tem trechos que considero excelentes e comoventes e, com uns ligeiríssimos retoques, não por perfeccionismo mas por vício corrector de gralhas, acrescento ou corte de vírgulas e coisas dessas, ficaria de... antologia.

Um forte abraço, também pelo avô que tiveste

Rogerio G. V. Pereira disse...

Suponho que a interposta pessoa que lia as cartas de teu avô
por ele nunca se afeiçoou.

É pena
daria uma bela
telenovela

(não devia gozar com tua memória, mas hoje eu não me recomendo)

Odete Ferreira disse...

Não me envergonho e confesso: emocionei-me.
Pelo pouco que li por aqui, o neto honra bem o legado linguístico do avô.
Não costumo comentar quando, por acaso, entro num blogue. Neste não resisti.

João Miguel Salgueiro Gameiro disse...

Que texto!!!
Extraordinariamente bem escrito! Impressionante estória!
Porém no que se refere ao conteúdo já me merece algumas discordâncias.
O Bernardo não só se considerou no direito de decidir sobre o momento de pôr termo à sua vida, como de determinar o futuro de outras duas vidas.
A noiva que perde o noivo por óbito, não é um bem da propriedade do falecido a deixar em testamento. É uma pessoa. Livre, com direito a auto determinar-se podendo escolher refazer a vida afetiva com quem ela por si mesma escolha, sem ver-se condicionada pelos propósitos que o falecido fez para o seu destino. É dela e só a ela cabe decidi-lo.
Onerar um amigo com um dever decorrente da amizade com um casamento que poderia nunca ser de amor também me parece absurdo.
Quanto ao pedido para morrer devo dizer que o cenário desta estória é o mais inteligente que já vi traçar em defesa da aceitação da eutanásia. Ainda que concedendo nesse aspeto, não me convence . É que já vi tantas pessoas desfeitas, sem braços, sem pernas, vivendo mais e mais utilmente do que muitos a quem os não falta. Se estava moribundo acabaria por morrer, se fosse a hora, sem ajuda. Se ainda podia salvar-se, resta dizer que apenas lhe faltou coragem de continuar a vida com os seus pedaços. Eu acredito profundamente que há circunstâncias na vida das pessoas que requerem muita mais coragem escolher viver e resistir, permanecer em luta ( posto que a vida nada é senão luta desde o embrião no ventre materno até ao fim ) do que escolher descansar, desistir, adormecer eternamente.
É por isso, que apesar de ser o texto mais inteligente que li em defesa da eutanásia, não me convence quanto ao conteúdo.

Mas abala :-) como só Vossa Majestade, Rei da escrita e do bom senso, unicamente seria capaz.

Ainda assim eu digo Não à eutanásia.

Um abraço

Anónimo disse...

Dos melhores textos que aqui li.Parabens.!!!

Anónimo disse...

Muito bom. Vou partilhar no meu face.

Anónimo disse...

Uma belíssima carta de amor!!!

Própria para o dia dos namorados.

Manuel Veiga disse...

quem escreve assim não é gago de caneta
(ou tecla, seja lá o que for)

força, companheiro!

forte abraço

Anónimo disse...

Pergunto ao autor da carta quanto de ficção existe nela. Obrigado.

O Puma disse...

Mais um excelente texto de ficção e realidade
um casamento perfeito
escrito com mestria

Mais um brinde aos teus leitores
Abraço amigo


Pata Negra disse...

Anónimo das dezoito e dois, o Rei não tem por regra responder a anónimos, muito menos aos que escrevem às dezoito e dois, mas dada a aparente inocência da sua questão, saiba que neste reino tudo é ficção a começar pelo o autor que só enquanto personagem é monarca e suíno.
Estendo-lhe a mão para a beijar com a exigência de que, para a próxima, utilize ao menos um nick para não ser confundido com os outros anónimos.

Aproveito para deixar aos outros comentadores um muito obrigado pelas vossas observações