sábado, 21 de janeiro de 2017

Hei-de morrer

Estou a escrever
Para dizer que vou morrer
Ainda há-de haver
Em nome de Deus virgens a explodir em Telavive
Em nome da América soldados gordos a morrer em Kandahar
E em meu nome homens que não me conhecem a falar

Estou a escrever
Porque irei morrer
Ainda há-de haver
Crianças a morrer de fome em Mogadíscio
E um menino chamado Aparício
Assassinado em Janeiro no Rio

Caramba irei morrer
De frio a escrever
E ainda há-de haver
Um Portugal pobre e amordaçado
E um povo orgulhoso de lhe chamarem zé

É hei-de morrer
A escrever a mesma coisa
Com outros confortáveis blogueres de T3
Conformado por ter passado a minha vez
De despir e ter nua a verdade à minha frente
Entre operários que desceram a rua que era para subir

É hei-de morrer a rir
De mim e qualquer coisa
Hei-de partir a loiça a definhar
Com o Sol todos os dias a pôr-se e a nascer
Com a Lua aluada a crescer e a minguar
E por cá a Terra a rodar em voltas sempre iguais

Ah hei-de morrer
Se não morresse era demais
A ver as gerações passarem em mutação
E os pobres desgraçados humilhados
Sempre à espera duma tal revolução
Que sempre é vencida

Escrevam da vida escritores de secretária
Cantem o amor cantores de luminária
Que hei-de morrer a ouvi-los escrever e a cantar
Sem nunca pegarem numa palavra a atirar
Forte nos dentes dos párias que demandam
Às castas baixas o vinho sem papéis
Andam para aí uns que se dizem democratas
Abatam-nos são mentirosos e ranhosos

Hei-de morrer de baba e ranho
Num futuro igual a antanho e a dormir
Com a América Latina a sonhar
Com a Europa em obras
Com Putin entre ursas
Com Trump entre vacas
Com uma dor do caraças a moer-me o juízo

Ai a vida é desesperançada sei
Porque não há decreto que mude este mundo e este país
Não quero ter esperança nem medo
Quero, quis, quererei

Hei-de morrer
E se eu morrer de dia a seguir haverá uma noite
E se eu morrer de noite a seguir haverá um dia
E quer seja de noite ou de dia haverá uma madrugada
Em que depois se irá lutar
E depois de se lutar haverá dia ou nada
E depois da noite haverá luto ou alvorada

Olha se eu morresse
Ainda gostava de viver o que acontece
Talvez depois de eu morrer por escárnio
Alguém invente a paz o amor e a democracia

6 comentários:

cid simoes disse...

Venha primeiro a democracia, não a de plástico, e a verdadeira democracia trás consigo a paz e com a paz há amor às pasadas.

Rogerio G. V. Pereira disse...

Hás-de morrer?
Sim, claro!

Quando isso a mim acontecer
passarás, bácoro
a ser alguém
que eu, sem que tal tenha decidido,
olvido...

Mas, porra
enquanto não morres
estremeces, mexes!

João Miguel Salgueiro Gameiro disse...

Esmagador este texto. Muito bom.
A quem escreve assim só pode pedir-se que viva, viva muito.

zambujal disse...

Que grito!
Um enorme abraço de outro morifundo... que ass(assi)na o que escreves.

Manuel Veiga disse...

morre devagar, devagarinho que depois de morto
tens tempo o todo.

não há decreto que mude o mundo.
nem nenhuma morte antecipada que o faça.

O Puma disse...

Estamos sempre a desnascer
mas enquanto vivos
não deixaremos morrer os nossos mortos
Abraço amigo