quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

Crónica duma morte anunciada


Isto não é bem como um nascimento que se sabe mais dia menos dia acontecerá, isto não é bem como o Revirão em que a ansiedade explode na hora marcada,  isto não é bem como a notícia duma vitória eleitoral que as sondagens anteriormente asseguraram.

Um homem incomum, com alguma idade, está muito doente, dizem.

As televisões já têm em cima da mesa as peças montadas com as imagens de arquivo, os locutores já gravaram as verdades encomendadas, já estão convidados os comentadores para dizerem de sua justiça, já estão de piquete, com a lista de individualidades de entrevista obrigatória, os operadores que irão fazer os diretos, já se espera a gaboralice dos que fizerem o anúncio em primeira mão que distarão dos concorrentes por um unha negra.

Os jornais já têm pronta a primeira página do dia esperado e colunas escritas com antecedência, textos com espaços em branco para completar com dados clínicos, pormenores do velório, itinerário do cortejo e lugares para as fotos com legendas dos nomes de gente que de certeza vai aparecer.

A necrofilia dos media em todo o seu esplendor.

E no facebook e nos blogues é que vai ser!!! Ocasião maior para o exercício do jornalismo doméstico, para a exibição de sentimentos à altura, para o cultivo de raivas passadas, para o humor negro de anónimos e até para os foguetes de indigentes energúmenos.

É para não fazer esse papel que eu escrevo antecipadamente, agora, com todo o cuidado, incluindo o de não referir o nome do homem que, não sendo homem dos meus círculos, a sua vida ou a sua morte me merecem a mesma consideração do que as de qualquer homem comum. De qualquer forma será sempre um momento triste, pelo menos um triste espetáculo mediático já começou.

Se para Alexandre O Grande para quem não bastou o mundo, bastou um túmulo, para este que se insinua deveria bastar uma morte e não que fosse morto tantos dias.


3 comentários:

Rogerio G. V. Pereira disse...



diz a necrofílica mensagem de um poeta
mesmo antes do corpo passar ao inevitável estado
de cadáver

"Biografias é comigo"



O Puma disse...

Os seus amigos fazem-lhe o funeral em vida

como ele politicamente aos seus amigos

Ninguém merece a eternidade
nem nós cá estaremos

Manuel Veiga disse...

e não que cheguei a pensar que tu, Rei, de quem e dalém, da bacorada, encenavas a teu próprio funeral!

... e afinal só ares!