terça-feira, 13 de dezembro de 2016

Para quem gosta de ser filho, mãe não há só uma

Ontem visitei a minha mãe. Já não é a mesma que conheci quando crescia. O alpendre da avó foi com um vento, a eira do tio foi com uma enxurrada, da casa do bisavô não resta nada. E foi morrendo cada geração e ela ficou ali rapando o sol e mastigando o frio. Podia ser pior. Passa um trator com corta-mato e o tratorista acena a tudo o que mexe. A Sagrada Família ainda vai de casa em casa. Podia ser pior!... O doutor de letras restaurou a casa que herdou do pai. Isto vai! Digo que sim respeitando quem o diz mas a minha mãe não tem a mesma alegria. Os filhos tiveram mais partidas que regressos. Vem ver uns marcos e dar algum dinheiro para o andor. Deus Nosso Senhor lá sabe. A minha mãe tem a pele marcada pela ausência das sombras das árvores que o fogo levou. A minha mãe tem os cabelos despenteados pelo fim dos arados que o tempo levou. Já só a visito por ser mãe e folgo em saber que ela está para durar nem que seja só para enterrar os que vão morrendo. Outros destinos traíram-lhe o destino.
É claro que falo da minha terra-mãe que a do ventre já se foi e não viu isto. 



Dizia eu, em tempos, que quem perde as suas raízes, seca. Pois então falei a uma retro e a um camião e trouxe uma carrada de terra lá da terra e fiz um canteiro no meu quintal. Agora estou melhor! Tudo o resto são saudades e remorsos.
Eu devia ter sido pastor ou lavrador como os avós.
Mas não! Fui no engodo de que estudar é que era! Com a certeza de merda que qualquer cidade me daria mais. E olha agora, a minha terra-mãe a morrer e eu longe dela!

Toda a província padece deste mal. É bem feito em quem parte e em quem fica dizendo:
- O meu está muito bem, vive em Aveiro!
- O meu lá está para França e lá fez vida! 
- O meu neto está um homem, foi pró Dubai!
- A minha filha está tão contente desde que o filho arranjou emprego na Inglaterra!

Nas aldeias ninguém cria os filhos com projetos para que eles venham a viver nelas. Uma terra com os campos ao abandono não tem futuro. Um país que abandona as suas aldeias não tem futuro. Um Estado que fecha tudo o que é serviço público nas aldeias, não é um Estado é um bananal!

PS/ Estímulos à natalidade com distribuição de perservativos? Um governo que dizia promover  a natalidade ao mesmo tempo que acabava com o abono de família e aconselhava os seus jovens a emigrarem? D

3 comentários:

Zambujal disse...

Excelente!
Como tu precisas de (nos) escrever...

Zé Povinho disse...

Infelizmente o país vai envelhecendo, não só no interior, e nós vamos envelhecendo no posto de trabalho, condenando cada vez mais jovens a sair do país por falta de postos de trabalho...
Abraço do Zé

João Miguel Salgueiro Gameiro disse...

Excelente texto. Raciocínio perfeito. Visionário.