domingo, 23 de abril de 2017

A senhora apareceu-me

A senhora apareceu-me!... Aparição, visão, sonho ou fantasia?
Dormia eu a sesta à sombra duma azinheira (numa manta de retalhos, pois claro!) quando uma senhora brilhante, não tanto como o sol, chegou à minha beira.

Não me disse para a louvar por ser celeste,
Não me sugeriu que sofresse para lhe agradar,
Não me exigiu que lhe agradecesse a força do meu trabalho,
Não me pediu que lhe suplicasse a felicidade,
Não me rogou que lhe repetisse como um papagaio preces e avés,
Não me segredou guerras futuras se não a venerasse,
Não me culpou pelos meus prazeres carnais,
Não disse nada.
Não vinha de calças, nem de saia comprida, nem de mini-saia.
Nua e serena, aproximou-se. 
Só uma senhora assim para me pôr de joelhos.
Pôs-se de joelhos também.
Enrolámo-nos na manta de retalhos. Paz, amor e sorte.
Azar, era dia 13, um melro largou-se no meu rosto. 
Acordei.
Da santa ou companheira, nem sinais.
Dei um salto.
Falei alto
À sombra duma azinheira:
25 de abril sempre! Fascismo nunca mais!



sexta-feira, 21 de abril de 2017

Fátima - Visão ou Aparição - eis a questão!

Fátima em três tempos, três histórias.

A primeira história de Fátima desenvolve-se até meados dos anos trinta com testemunhos de gente simples, analfabeta e temente a Deus, com uns clérigos que não perdoam a República e que vêem na moda das aparições uma forma engenhosa de chamar crentes ao seu "partido" e com Lúcia, a atriz escolhida para personagem principal.

A segunda história começa a desenvolver-se quando a Igreja toma oficialmente o caso em mãos. O articulado ganha nova prosa, os livros trabalham os depoimentos e abafam os testemunhos orais e é construída a necessária Mensagem que, à moda da época, não poderia deixar de dar ênfase à ameaça da Rússia e aos males do comunismo.

Mas eis que, chegados a estes tempos que vivemos, a verdade histórica e a Mensagem construída não oferecem coerência suficiente para serem defendidas por teólogos credenciados ou por um papado que se quer credível.

Sendo assim, como explicar a vinda dos Sumos Pontífices ao Santuário de Fátima? Efetivamente , o Vaticano está bastante comprometido com as histórias de Fátima mas, se repararmos, nos últimos anos tem existido uma hábil agenda de descalçar botas. Em 2010, Bento XVI revelou, sem grande entusiasmo, o terceiro segredo, deixando incrédulos os crentes: - Afinal era só isto?!
É também neste contexto que podemos entender a vinda do inteligente papa Francisco a Fátima. Tudo parece indicar que se começa a virar o bico ao prego e que estamos a dar início à terceira história de Fátima. Daqui a cem anos não se dirá "Centenário das Aparições" mas sim "Centenário das Visões":

No livro "Fátima: Das Visões dos Pastorinhos à Visão Cristã", D. Carlos Azevedo explica por que é que no fenómeno de Fátima se deve falar de visões e não de aparições, como vulgarmente acontece.

Clique na imagem para ver "a mosca"


terça-feira, 18 de abril de 2017

Os primeiros terços de Fátima

Para os que sabem que um terço é uma coisa que se reza e distinguem uma novena ou uma dezena dum terço ou dum rosário, aqui vos deixo o testemunho dum industrial de terços que conheço.

Crescia Fátima, nos anos trinta de Salazar e Cerejeira e a Fé em milagres do Céu fazia milagres comerciais de vendas de santinhos, de água, de vinhos e enchidos quando um pastor, pouco pastorinho, começou para lá a caminhar em dias de romaria, para vender os seus terços artesanais. Eram feitos de caroços de azeitona, que era o que por ali mais havia  além de pedras e pobreza. A mulher aos serões esburacava as "contas", uma a uma, com uma sovela e ele durante o dia encadeava o arame nos terços.
- Mas um terço feito de caroços de azeitona não seria muito agradável à vista?!
- Para os fazerem brancos, davam os caroços a comer às ovelhas para que a passagem pelos seus intestinos os fizessem brancos. No outro dia era só pôr a criançada  a dissecar caganitas e o produto estava revestido de um branco imaculado.

E foi assim que começou por aqui a indústria de produtos religiosos. Um dia o pastor já entusiasmado pelo sucesso do negócio foi a Lisboa, descobriu bolinhas de vidro da Marinha Grande já com o furo feito e tudo, e então aí,  foi um ver se te avias até aos nossos dias.


domingo, 9 de abril de 2017

Na Cova dos Leões


Tive, nos idos anos 80, um primeiro contacto com o livro ao folheá-lo no sotão dum amigo. O livro ficou-me atravessado e falei dele a outros amigos. Um deles, mais tarde, contou-me tê-lo encontrado num alfarrabista ao preço de 100 euros. Porque razão um dos documentos mais esclarecedores da história de Fátima tinha sido proibido pelo fascismo não me custou a perceber. Custava-me a perceber porque razão o 25 de Abril não proporcionara a sua reedição se os exemplares existentes tanto valiam. Até que a Antígona o reeditou em 2009. Li-o de uma noite para a outra e fiquei saciado. Pela primeira vez tive acesso ao Relatório do Administrador do Concelho de Ourém datado de 1924. Para quem se interessa pelo fenómeno da Cova de Iria esta é uma leitura obrigatória.
Do autor, Tomás da Fonseca, falarão outros. Do livro, Cova dos Leões, outros falarão. Eu simplesmente recomendo a leitura, não para criar ou eliminar crenças mas porque é bom.


quinta-feira, 6 de abril de 2017

A minha primeira peregrinação a Fátima


Tinha onze anos, os mesmos que a Lúcia tinha quando começou a ter visões. A minha mãe não era muito devota das coisas de Fátima mas não teve volta a dar-lhe. Perante a minha insistência de querer ir na peregrinação da aldeia a Fátima, antes que o Diabo as tecesse, o melhor seria fazer-me a vontade porque, por detrás da minha vontade, poderiam existir vontades de Deus.

E lá partimos, por volta das cinco da manhã, doze peregrinos sendo eu o único homem. 

A mais velha ia pelo filho que andava na guerra em África e, não sendo mulher de promessas egoístas de prometer à Virgem não sei quantas idas a pé e voltas à capelinha se  o seu rapaz voltasse inteiro, ia para pedir à Senhora que o livrasse dos tiros dos pretos e o trouxesse saudável como ele sempre fora. Como a distância a Fátima a pé não lhe fizesse grande mossa, andar era como ela, muitos quilómetros fazia todos os dias, fez seu compromisso  ir calada, sem abrir pio todo o caminho.

Quando, ao fim de duas léguas andadas, se parou para a bucha, caçoada pelas companheiras com interrogações - vozes do Demónio em bocas de gente de Deus - ora fazendo má cara, ora sorrindo, não caiu em nenhuma provocação, não se lhe ouvindo verbo nem interjeição. Amoleceu bem o sal do pão com toucinho do seu farnel com dois e meio dos sete e meio que levava do seu vinho, dando de vencidas todas a tentações das primas e vizinhas que a queriam, escarnecidamente, ver descair-se com uma palavra.

Levantaram-se as mantas e os panos para continuar na estrada de piso de terra e mal composto e, num passo mal dado, uma  raiz exposta à superfície, despoletou tropeço, fê-la andar três dias a cair e, vai daí, ei-la estatelada no chão enlameado, sem tempo para pensar que tem de estar calada e a exclamar naturalmente, "carvalho  - ou "caralho!"(ao fim de tantos anos não me lembro do termo exato!) - do cachopo que me passou uma rasteira!".
- Eu?! - perguntei na minha inocência.

Ela levantou-se a rir e disse-me "menino, estava a brincar!" E,  invertendo o sentido dos seus passos, disse às demais:
- Rezem por mim que eu vou para casa que tenho por lá mais que fazer do que farei indo convosco. Não há-de ser por causa de uma carvalhada - ou "caralhada", (ao fim de tantos anos não me lembro do termo exato) - da sua mãe que o meu filho não há-de voltar são e valente!

E, virando-se para mim, lembro-me bem, disse-me exatamente assim:
- E tu menino, já que a Santa prefere ouvir meninos, exige-lhe que Ela acabe com a guerra, que Ela tem bem poderes para isso! 


quinta-feira, 30 de março de 2017

O padre Formigão e a imagem da Senhora de Fátima

Texto do Jornal de Leiria de 23/03/2017, da autoria de Ricardo Charters dAzevedo, que ilustra a forma como, a partir das contradições das descrições do trajo da Senhora por parte dos videntes e a imaginação do Visconde de Montelo, padre Formigão, se chegou a uma Imagem de Maria bastante diferente. Estão entre este pormenores imperdoáveis como descer-Lhe as saias ou tirar-Lhe as meias.


Clique na imagem para ler

Este papa é um tipo estudado


Um tipo, para chegar a papa, deve ter um currículo eclesiástico do caraças, uma formação teológica bastante aprofundada, uma origem geopolítica conveniente ao tempo histórico do momento, ser casto e, claro, ser crente. Isto para além, evidentemente, de reunir a simpatia do colégio que põe lenha na fogueira que faz o fumo.

A escolha do Chico cumpriu isso tudo e, embora mantenha o tom e o timbre de voz característico dos papas, tem tido, por vezes, um comportamento que tem surpreendido, positivamente, os preconceitos de ateus e agnósticos, os anseios de progressistas católicos e a avidez devoradora da imprensa ocidental.

Para além de ter ido ele próprio comprar um par de sapatos, já reconheceu as teorias de Darwin e do Big Bang, já declarou não ter poderes para julgar a homossexualidade, já admitiu que os ateus também podem subir ao Céu, já disse que os bons católicos não precisam de se reproduzir como coelhos, já denunciou as rivalidades e intrigas entre os cúrias, já se manifestou contra o sistema capitalista e elogiou as bandeiras comunistas, já afirmou a igualdade entre mulheres e homens, já colocou em causa a natureza do inferno e outras coisas que fazem corar a velha doutrina da Igreja.

Mas falta-lhe admitir que o próxima papa poderá ser uma tipa ou que a visão do inferno dos videntes de Fátima só pode ter sido um delírio psiquiátrico.

Aumentaria a bilheteira das igrejas se ninfas sacerdotisas abrissem os braços sob um manto diáfono no altar e aumentariam as vocações se os padres e as freiras pudessem copular como os demais.
Seria mais credível a Fé da Católica e Apostólica Romana se não se baseasse tanto na adoração de santos de pau ou polietileno, se não reconhecesse milagres por dá cá aquela palha, palha que bem abafada pelo padre certo, acaba sempre num altar rentável ou numa romaria que impressiona os céus.

Pois é aqui, ó Chico, que tu desiludes alguns revolucionários. Que coisa é essa de vires dar crédito, ou recolhê-lo, a Fátima e, ainda por cima, trazendo na manga mais uma canonização, justificada com o devido milagre do qual, desta vez, para não estar com mais explicações, também se faz segredo?

A Cúria já deveria estar escaldada com a gestão do segredo de Fátima que, depois de anos de suspense, acabou numa revelação irrisória, sem alma e sem sentido. Os estudos teológicos já deviam ter admitido que milagre é quando um braço de cera vira em carne e não quando um pingo de óleo salta da frigideira para um olho e passados uns dias o olho já está bom. A seriedade dos investigadores católicos da história de Fátima já os devia ter obrigado, há muito, a reconhecer que o Visconde de Montelo, o cónego Formigão, manipulou tudo e todos - mas não! Parece que nem ele vai escapar a canonização!

Não queremos ir tão longe de exigir ao papa um pensamento ateu ou que deixe de usar saias. Mas vá lá, já que estamos com a mãos na massa e temos um papa que dá ar da sua graça, ao menos que ponha um travão na pluralidade de fés e crenças, na proliferação de santos e milagres e diga duma só vez "Deus só há um" e que milagres desses são como os chapéus.

sábado, 25 de março de 2017

Fernando Pessoa disse sobre Fátima:


Que me perdoem os crentes e não crentes, os devotos e os hereges, os fidalgos desta corte e a plebe deste reino, esta insistência na questão religiosa e nos milagres de Fátima, que outra razão não encontro para a minha obsessão se não as linhas tortas por que o Altíssimo costuma redigir ou mão do Diabo iletrado que de mim se serve para escrever.  A verdade é que não consigo impedir o impulso, uma força oculta que me leva os dedos sequencialmente às teclas, de modo a digitar palavras não pensadas, que juntas esboçam pensamentos, a citar, a transcrever, qualquer coisa que me ultrapassa, uma tentação que não me permite ficar calado perante os reclames ao Centenário das Aparições de Fátima. Talvez, quem sabe se lá no fundo o que me move é o sentimento da impossibilidade de assinalar aqui o centenário da minha vinda à Vida e à luz do Sol.

Desta vez, quem será chafurdado é Fernando Pessoa. Vangloriado pela sua poesia, pela forma como expressou o que sentia e não como pessoa igual a tantos outros que nos seus versos se revêem, que como ele se abismam, tão sós como ele, que em copos sós, de vidro igual, afogam as questões da existência. Eu não sou desses; o meu maior regalo é beber pelo gargalo que vai de boca em boca, é amarrotar as folhas em que escrevo, é ornamentar o biombo do meu hall de entrada, é pôr na borda do prato os poemas sem poder de fogo.

- No entanto, ó Nando, quão semelhante acho o travo do teu tinto ao meu quando os cotejo! E cito-te, por conveniência, com muito gosto! Muitas vezes, para além dum verso, desta vez para revelar a tua posição em relação às aparições de Fátima:
"
Fátima é o nome de uma taberna de Lisboa onde às vezes... eu bebia aguardente. Um momento... Não é nada disso... fui levado pela emoção mais que pelo pensamento, e é com o pensamento que desejo escrever. Fátima é o nome de um lugar da província, não sei onde ao certo, perto de um outro lugar do qual tenho a mesma ignorância geográfica mas que se chama Cova de qualquer santa. Nesse lugar -- em um ou no outro-- ou perto de qualquer deles, ou de ambos, viram um dia umas crianças aparecer Nossa Senhora, o que é, como toda a gente sabe, um dos privilégios infinitos a que se não parte a corda.

(...) e assim como passou a haver "liberdades" em vez de "liberdade", assim também passou a haver crenças em vez de crença, fés em vez de fé, e vários outros plurais ainda mais singulares.

(...) Seja como for, o facto é que há em Portugal um lugar que pode concorrer e vantajosamente com Lourdes. Há curas maravilhosas, a preços muito em conta; há peregrinações que dispensam o combóio (criação do estúpido etc!).

(...) O negócio da religião a retalho, no que diz respeito à Loja de Fátima, tem tomado grande incremento, com manifesto extase místico da parte dos hoteis, estalagens e outro comércio desses jeitos--o que, aliás,está plenamente de acordo com o Evangelho, cuidando-se de bens materiais,"Buscai-vos o Reino de Deus e todas essas coisas vos serão acrescentadas".


Fernando Pessoa Jornal de Letras nº 1010 de 17-30 de Junho de 2009

terça-feira, 21 de março de 2017

Os pastorinhos nunca estiveram presos na cadeia coisa nenhuma!...

Não me incomoda Fátima enquanto questão de Fé, enquanto acontecimento de dimensão política da República ou enquanto história que se desenvolve segundo a premissa de “quem conta um conto aumenta um ponto”. Incomoda-me sim quando, na história escrita pelos vencedores, a deturpação e a fantasia denigrem injustamente o caráter dos vencidos ou nos desconsideram, fazendo-nos passar por tolos.



Porque é mentira que os três protagonistas principais, as três crianças, os três pastorinhos, os três videntes, Lúcia, Jacinta e Francisco, alguma vez tenham estado presos na cadeia; porque em todo este enredo se vão confundido os acontecimentos reais, a ficção e o sobrenatural; porque na evolução das versões, na literatura sobre o tema, no imaginário dos devotos e até no cinema, se foi cimentando o cenário onde as três criancinhas vivem os horrores da prisão, sujeitas à tortura, a ameaças de morte e ao convívio com perigosos criminosos; porque em todo este guião surge sempre, como o “mau da fita”, o administrador de concelho de Ourém, Artur Oliveira Santos, deixo aqui um pequeno contributo para a reabilitação do seu nome e de alguma verdade histórica.

Paralelamente, sendo sensível a testemunhos orais que resistiram às duas ou três gerações que nos separam da época dos acontecimentos,  que asseguram que o pai ou a avó lhes contou lembrar-se de ter visto os pastorinhos na varanda brincando com os filhos do Administrador ou até mesmo na procissão das Festas da Nossa Senhora da Assunção, senti-me incomodado pela rara documentação que denuncia essa mentira, razão única que me levou a fazer este trabalho.

Se ao princípio a pesquisa que se exigia me deixou frustado eis que, por mero acaso ou mão divina, encontrei, duma penada, alimento para a minha intenção – provar que os pastorinhos nunca estiveram na prisão – e, para cúmulo da sorte, numa única fonte, o site oficial do Santuário de Fátima, num único documento, Documentação Crítica de Fátima – Seleção de Documentos (1917-1930).

Não tendo perfil de historiador, limitar-me-ei a transcrever excertos que, na minha opinião, provam que o “mau da fita” levou as crianças para sua casa, de 13 a 15 de agosto de 1917, e não para a prisão, com os propósitos de evitar a “especulação clerical” – expressão do próprio - à volta das mesmas, de averiguar se existiam outros intervenientes por detrás das aparições e de impedir que no dia 13 acontecesse mais uma manifestação de “culto externo” – proibido pela República.

Vamos então ao(s) documento(s), reduzindo as notas ao essencial, muitas vezes apenas as páginas em que constam, na dita Seleção de Documentos, para tornar a dissertação mais concisa.

A apresentação na ordem cronológica pode parecer natural mas não é inocente, tendo em conta o facto da história de Fátima ter estado, desde o início, em evolução permanente, como não será por acaso que a própria seleção em análise demarque o ano 1930, altura que alguns autores assinalam como o início da Segunda História de Fátima.


1- (Pág. 39) Carta do Padre Manuel  Ferreira, pároco de Fátima, ao redator do jornal “O Ouriense”, a defender-se da acusação de cumplicidade com o administrador de Vila Nova de Ourém, no rapto dos videntes no dia 13 de agosto de 1917 – 25/08/1917.

“Chegou no dia 15, a autoridade com as crianças a minha casa, onde se ajuntaram os pais das mesmas e muitas outras pessoas perante as quais pretendeu com todas as amabilidades explicar o seu modo de proceder.”

Comentário: O Administrador foi amável.

2- (Pág. 50) Depoimento do Pe. António dos Santos Alves , pároco das Cortes, sobre a conversa com Lúcia e Jacinta, em Reixida, freguesia das Cortes sobre a sexta aparição – 17/09/1917.

“Neste dia disse-lhe que se elas no dia 13 não tivessem sido levadas pelo administrador, o milagre (para o povo) não teria sido tão conhecido.”

Comentário: É  Nª Senhora, a Própria, que  utiliza o termo “levadas” sem recorrer a outros como “presas” ou “prisão”.

3- (Pág. 51) Interrogatório aos videntes Lúcia, Francisco e Jacinta, e a Maria Rosa, mãe de Lúcia, feito pelo Dr. Manuel Nunes Formigão, aquando da sua segunda visita à Cova da Iria, no intuito de completar as impressões colhidas no dia 13 de setembro de 1917 - 27/09/1917.

“O sr. Administrador quis realmente que eu lhe revelasse o segredo, mas como eu não o podia dizer a ninguém, não lhe disse, apesar de ter insistido muito comigo para esse fim.”

Comentário: A Lúcia fala de” insistência”, não fala de ameaças, nem de caldeirões de azeite, nem de prisão.

4- (Pág. 61Redação literária dos apontamentos dos interrogatórios do dia 11 de outubro de 1917, feitos pelo Dr. Formigão.

“Quando as crianças foram presas pelo administrador de Vila Nova de Ourém foi alguém reclamar que as restituissem aos pais? – Um irmão do Francisco e da Jacinta foi falar com elas a casa do administrador. A senhora do administrador perguntou se ia buscar as crianças, ao que ele respondeu negativamente. O próprio administrador as veio trazer à Fátima.

Comentário: Fica a ideia que o rapaz poderia ter levado os irmãos para casa.

5 - (Pág.s 176 e 181) Relatório do Padre Manuel Ferreira, pároco de Fátima – 6/08/1918.

“No dia vinte e um compareceu na minha presença a menina Lúcia e disse que no dia treze em que foi levada pelo administrador para Vila Nova de Ourém, e onde esteve, na casa do mesmo administrador, até ao dia quinze, não viu nada de extraordinário.”
...
“Por várias vezes interroguei a vidente Jacinta que sempre me confirmou que viu uma Senhora na Cova da Iria, nos dias treze de maio a outubro de mil novecentos e dezassete, menos no dia treze de agosto em que se achava em casa do administrador...”


6- (Pág. 261) Os acontecimentos de Fátima - opúsculo da autoria do Visconde de Montelo (Dr. Manuel Nunes Formigão) – 15/01/1923.

“Em 13 de agosto, momentos antes da hora da aparição, as crianças foram ardilosamente raptadas pelo administrador do concelho, que as reteve em sua casa durante dois dias...”

7- (Pág.s 291 e 303) - Interrogatórios oficiais realizados pela Comissão Canónica a Manuel Pedro Marto (a) e Olímpia de Jesus(b) (pais dos videntes Francisco e Jacinta Marto), Maria Rosa (mãe da vidente Lúcia), Maria dos Santos e marido, Manuel António de Paula e José Alves, acerca dos acontecimentos de Fátima – 28/09/1923.

(a) “Mais tarde, quando as veio trazer a Fátima, ... Declarou que acusavam o regedor e o senhor Prior do rapto das crianças, mas que só ele tinha a culpa, que podiam perguntar às crianças, se as tinham tratado mal, e que já não queria saber de nada, que elas podiam ir ao local, quantas vezes quisessem.”

(b)“Os irmãos de Jacinta foram de bicicleta observar o que se passava em Ourém e vieram dizer que tinham visto as crianças a brincar na varanda do administrador, que os tratava bem. O administrador veio trazê-los à Fátima no dia quinze num carro e foi pô-las na varanda do senhor Prior. ... As crianças mostraram-se como dantes contentes e prontas para brincar, dizendo que lhes tinham feito muitas perguntas e que tinha ido um médico examiná-las.”

Comentário: O Administrador manda perguntar às crianças se as trataram mal?... as crianças a brincar?... contentes como dantes?...

8- (pág. 318) Interrogatório oficial de Lúcia de Jesus, realizado pelos Padres Drs. Manuel Nunes Formigão e Manuel Marques dos Santos, da Comissão Canónica, Porto - 8/07/1924.

“Quando chegámos a Ourém, fecharam-nos num quarto e disseram que não sairíamos dali enquanto não declarássemos o segredo que a Senhora nos confiou. No dia seguinte... levaram-nos à Administração, onde fomos de novo interrogados... Voltámos para casa do Senhor Administrador, onde tínhamos ficado na noite anterior e de tarde fomos outra vez interrogados sobre o segredo. Levaram-nos à cadeia, e ameaçaram-nos de lá ficar, se o não disséssemos.”

Comentário: É de admitir que para dar carácter oficial à guarda das crianças as mesmas tenham sido levadas à Administração do Concelho. Sendo a prisão no mesmo edifício, é provável que as tenham levado à cadeia como forma de coação. Contudo, “levaram-nos à cadeia” não é o mesmo que dizer “levaram-nos para a cadeia”. Por outro lado, ao longo das 650 páginas do documento fonte, esta é a única referência ao termo cadeia - sete anos depois dos acontecimentos, quando a declarante Lúcia já não é nenhuma criança e já está à guarda num convento no Porto.

9- (pág. 432, 459, 463) Relatório da Comissão Canónica Diocesana sobre os acontecimentos de Fátima – 13/04/1930.

“O próprio administrador do concelho de Vila Nova de Ourém, que as interrogou no dia 13 de agosto, e as conduziu presas para sua casa, onde as conservou durante dois dias...”

 “Por isso submeteu as crianças, durante os dias em que as conservou em sua casa, a interrogatórios repetidos...”

“Por esse motivo, no dia em que devia realizar-se a quarta aparição, como já se disse mais atrás, apodera-se à falsa fé das pobres crianças e leva-as numa charrette para sua casa em Vila Nova de Ourém...”

Comentário: Este relatório marca o ponto de viragem nas versões dos acontecimentos e na adoção oficial do culto da Senhora de Fátima por parte da hierarquia da Igreja,  sendo de destacar como figura central desta comissão, como na maior parte das redações aqui referidas, o papel do cónego Formigão, Visconde de Montelo, o grande mentor de Fátima.

10 - Relatório do Administrador do Concelho de Ourém - 31/10/1924.

"...consegui trazê-las para minha casa, junto da minha família, num carro previamente alugado."

Comentário: Fica bem terminar dando a última palavra ao Administrador. Curiosamente este relatório não faz parte da seleção da "Documentação Crítica de Fátima" em que se basearam os itens precedentes mas pode encontrar-se aqui mesmo.


Nota final:  Espero ter deixado prova de que os pastorinhos nunca estiveram presos na cadeia coisa nenhuma, terá porventura a irmã Lúcia, ou os que por ela escreveram, introduzido essa referência muitos anos depois, mas quanto a isso paciência, pode servir para romancear a história mas para a verdade histórica já foi tarde. 

sexta-feira, 17 de março de 2017

Ó Fátima, Deus, Virgem Maria!...


Nasci, cresci e vivo com Fátima. A minha mãe agradeceu à Nª Senhora de Fátima o meu nascimento. Em criança, pedi à lareira o terço que a Nª Senhora me pediu que pedisse. Quando fiz o exame da 4ª classe pedi à Nª Senhora do Rosário de Fátima que me ajudasse e passei. Já fui não sei quantas vezes a Fátima a pé e conheço de perto a realidade histórica e atual. Gosto de ir a Fátima porque lá se ouve o vento e interesso-me pelo fenómeno nas suas múltiplas vertentes. Conforta-me que a Igreja Católica não faça de Fátima dogma de Fé e rendo-me à evidência de Fátima existir. Ao fim de séculos de aparições e milagres por tudo quanto é ermo parecem ter parado por aqui as revelações do Céu. Parece que agora é mais difícil ou, ao que "aparece", já não é necessário!

Que ninguém ouse desmistificar Fátima porque Fátima interessa a todos. Interessa ao crente para aliviar a mente e acreditar em melhores dias. Interessa às freiras para terem casa e terem que fazer. Interessa aos padres para colmatar as ausências à Missa Dominical e apascentar os fiéis. Interessa aos bispos para se fazerem ver e serem ouvidos. Interessa ao Papa para sair de S.Pedro e recolher uns fundos e uns beijos. Interessa aos governantes quando não há Benfica ou a fadista está rouca. Interessa à região porque Fátima é turismo e é comércio. Fátima, interessa a todos! Calemo-nos, pois, todos! Quem souber rezar que reze! Quem souber ganhar que ganhe! Eu fico a ouvir o vento à sombra de uma azinheira de quem se sabe a idade!

O Papa vem aí? Pois que venha! Que pacifique os espíritos que falam com a Virgem e que a adoram, que não questione os factos que rezam a história e que, convenientemente e silenciosamente, dê um dedinho da sua mão beijada pelo turismo religioso que tanto jeito faz à nossa economia.
aujourd´hui je suis Marcelo

sábado, 11 de março de 2017

Relatório oficial sobre os acontecimentos de Fátima

(continuação) - 1 - 2 - 3 - 4

A concorrência, no dia 13 de Outubro, foi inferior à de 13 de Maio do mesmo ano. Houve missa campal, mas não se realizou a procissão. Em 13 de Maio de 1923, a aglomeração  foi superior à de 13 de Outubro de 1917, mas isto devido à grande propaganda e  à circunstância de o referido dia ser domingo. A força enviada não chegou a intervir, apesar de na Cova de Iria se efectuarem procissões sem a permissão da autoridade.

A este tempo já estava quase concluído um enorme poço, que o bispo de Leiria mandara fazer, para recolher as águas pluviais, pois a Cova de Iria que, como disse, tem a designação de depressão de terreno, deve comportar 500 pipas de água, não que ali brote, como falsamente tem sido propagado, mas que ali armazenam, para vender ao público, o que constitui larga receita. Começaram já a murar o terreno adquirido, que deve ter, aproximadamente, 250 metros de comprimento por 150 de largura. A compra do terreno deve ter custado 80 contos.

São muitos os promotores ou interessados desta peregrinação, mas o principal é o bispo de Leiria. É quem tudo orienta e dirige. Na procissão, a que já me referi, nomeou uma comissão para averiguar da “veracidade do milagre” e organizar o processo segundo as leis canónicas. Conheço alguns dos nomeados – autênticos inimigos do regime republicano e criaturas vulgares, que antecipadamente o bispo muito bem sabe que implicitamente lhe aprovarão por unanimidade o grande milagre. Constituem a referida comissão os padres João Quaresma, vigário geral da diocese; Manuel Marques dos Santos, director da Voz de Fátima; Joaquim Coelho Pereira, prior da Batalha; Joaquim Ferreira Gonçalves Neves, prior de Santa Catarina da Serra; Agostinho Marques Ferreira, pároco de Fátima; Manuel Pereira da Silva, professor do Seminário; Manuel Nunes Formigão, professor do liceu de Santarém, e Faustino G. Jacinto Ferreira, vigário da Vara de Ourém. Pelo falecimento deste, foi nomeado o sobrinho, Faustino Ferreira, também vigário da vara. Como as obras da cerca estão a concluir-se, deve estar também a concluir-se o processo canónico. Nenhum orçamento ou estatuto até hoje passou pela Administração do Concelho, nem se sabe verdadeiramente onde o dinheiro é aplicado.

Pelo artigo 57 da Lei da Separação, só serão permitidas manifestações de culto externo, onde e quando constituírem um costume inveterado. Ora, na via pública, na estrada 121 (ramal), tal não acontece e por isso não poderão ser permitidos actos de culto externo. Na Cova de Iria foi feita da capela uma casa, espécie de chalé, onde os padres têm a santa, pregam sermões e dizem missa. Foi-lhes retirada autorização para qualquer acto de culto fora daquele local.

A multidão que vem à Cova de Iria é composta de diferentes classes. Vão os crentes ingénuos e simples, arrastados pela crendice; vão os negociantes de comes-e-bebes e vendilhões de rosários, das estampas, etc.; vão os petisqueiros com os seus farnéis; vão os curiosos, os descrentes, politiqueiros, etc., uns sozinhos, outros com a família ou os amigos, mas a grande maioria é decerto constituída por gente rude, de longes terras, onde predomina o fanático e o reaccionário. Os concelhos que fornecem maior número de pessoas são: Torres Novas, Vila de Rei, Mação, Proença-a-Nova, Oleiros, Idanha-a-Nova, Fundão, Sardoal, Ferreira do Zêzere, Sabugal, Vila Velha de Ródão, Pedrogão Grande, Figueiró dos Vinhos, Ponte de Sor, Alter do Chão, Fronteira, Pombal, Alvaiázere, Porto de Mós, Batalha, etc.

Fátima é hoje, no país, uma etapa da Reacção, que procura ponto de apoio para base da sua resistência. O facto de se não ter impedido eficazmente a peregrinação deveu-se simplesmente a terem as forças armadas chegado tarde. É certo que foram postas à minha disposição forças das unidades mais próximas porque aquelas que chegaram no dia 12, à tarde, eram insuficientíssimas, mas, requisitando mais, tinha dois caminhos que trariam para o Regime inconvenientes novos.

As forças que eu requisitasse das unidades mais próximas, só aqui chegariam no dia 13. Ora no dia 12, já estavam em Fátima, seguramente, 25000 pessoas. Com o auxílio de novas forças poderia eu ter ido a Fátima dispersar 50000 a 60000 pessoas? O sangue que fatalmente correria não seria uma arma terrível contra o governo e contra o Regime? Por outro lado, não me utilizando a força, cairia, pelo menos, no ridículo, e não querendo, por princípio algum, desobedecer a V. Ex.ª, preferi não requisitar mais a tropa e mandar a pequena força para onde fora requisitada, fora do local da Cova de Iria, tanto mais que a mesma força seria suficiente para impedir a saída da procissão  de Fátima, caso teimassem em realizá-la, o que, todavia, não era preciso, pois que eu já tinha conseguido impedir a sua realização por outros meios mais suazórios, embora não deixassem de causar receio ao pároco da freguesia e a outras pessoas.

Às 22 horas da noite de 12, veio o Dr. Andrade e Silva (a pedido da Sr.ª D. Madalena Serrão Machado, que tem feito a perigosa propaganda da cura do cancro pelas águas pluviais da Cova de Iria) pedir a realização da procissão. Neguei-lhe terminantemente permissão para esta e fiz-lhe saber que no dia 13, prenderia o pároco da freguesia. Pediu-me então aquele cidadão que tal não fizesse, tão convencido estava o Dr. Andrade e Silva de que eu tinha esse intuito.

Na comunicação enviada a V. Ex.ª, julgo que em 10 do corrente mês, frisava eu que havia duas maneiras de intervir.
1ª) O Governo mobilizaria os meios de transporte em diversos distritos; 2ª) ou, então, a Guarda Republicana impediria que se realizassem  actos de culto externo. Embora, como V. Ex.ª sabe, me prejudique materialmente continuar por muito tempo neste lugar, que V. Ex.ª se dignou confiar-me, eu não terei essa dúvida, se assim for preciso, de nele me conservar, porque nunca hesitei no cumprimento dos deveres de republicano, que me prezo de ser, desde há longos anos.

A Reacção vai triunfando, hipocritamente, e a Liberdade perde terreno, fazendo-lhe concessões. Aquela está fora da lei e é necessário metê-la na ordem. Julgo que há maneira de jugular a Reacção da Cova de Iria. Quando o Governo não possa, ou, para melhor dizer, não queira mobilizar os meios de transporte em diversos distritos, tomar-se-iam, a pouca distância da Cova de Iria, as embocaduras das estradas que conduzem a Fátima, anunciando-se devidamente o caso com certa antecedência. Fazendo isto, durante meses consecutivos estou certo que a Reacção sofreria um grande golpe, deixando a pretensão de ter um Estado dentro do Estado.

Junto vários documentos.
Saúde e fraternidade!

Vila Nova de Ourém, 31 de Outubro de 1924.

O Delegado do Governo encarregado do inquérito,

ARTUR DE OLIVEIRA SANTOS.

quinta-feira, 9 de março de 2017

As aparições de Fátima no Relatório de Artur de Oliveira Santos

(continuação 1 - 2 - 3- 4 ) do Relatório do Administrador do Concelho de Ourém, Artur de Oliveira Santos, a propósito das aparições de Fátima, escrito em 1924.

Depois desta data, tendo eu deixado a Administração do Concelho, foi proibido e permitido, sucessivamente, o culto externo, mas as peregrinações ou romarias nunca mais tiveram a mesma importância de algumas anteriores. Posteriormente é que o bispo de Leiria, José Alves Correia da Silva, se resolveu a intervir. O primeiro acto foi levar Lúcia para fora de Fátima, a pretexto de a mandar educar, o que a própria família confirma, não se sabendo, porém, do seu paradeiro.
De vez em quando, escreve à mãe (ou alguém escreve por ela), dizendo estar bem, num colégio, e recomenda que ninguém duvide do milagre da Cova de Iria. Consta estar num convento em Espanha, o que é dito pelo vizinho Casimiro Rodrigues Esteves. Em Lisboa, na Rua dos Bacalhoeiros, Hospedaria dos Bicos, o proprietário desta, igualmente de nome Casimiro, um velho republicano, alguma coisa sabe sobre o assunto.

Para avaliar o critério do Bispo, basta ler, na provisão que vai junta a este relato e que foi publicada no jornal A Época, de Lisboa, nº1019, de 14 de Maio de 1922, a seguinte passagem: “Demais a mais, a pequena saiu da terra, nunca mais lá apareceu e, não obstante, o povo acorre ainda em maior número à Cova de Iria.” A sua intolerância é de tal ordem que, em 23 de Abril de 1923, mandou uma circular aos párocos da sua diocese, proibindo-lhes assistir a qualquer festividade religiosa onde comparecesse  a filarmónica dos Pousos (Leiria), pelo facto de aquela ter tomado parte numa festa liberal, julgo que comemorativa da Lei da Separação. O seu egoísmo e cupidez são grandes. A testemunhá-lo basta a caça feita à herança de D. Constança Teixeira Albuquerque, de Caldelas, freguesia da Caranguejeira (Leiria), uma pobre viúva que deixou os parentes sem recursos, para legar ao bispo uma fortuna que deve orçar por 800 contos.

O mesmo Bispo de Leiria foi quem veio dar alento à mistificação. Inteligente e astuto como é, procede com discrição e prudência. O dinheiro recebido da Cova de Iria (larga depressão de terreno como o nome indica), remetido, todos os dias 13, à consignação do bispo, é incalculável. Em Maio de 1923, o semanário republicano A Voz do Povo, de Leiria, que não foi desmentido pelos jornais católicos, noticiava que o dinheiro recolhido no dia 13 do referido mês somava 200 contos. Por informações que reputo fidedignas, a receita nos dias 12 e 13 do corrente mês de Outubro de 1924 foi de 120 contos. E há a notar que, encontrando-se a igreja paroquial em obras, nenhuma das importâncias recebidas na Cova de Iria foi entregue para a referida igreja. É tudo ensacado e levado a S. Ex.ª, para Leiria, no próprio dia 13 de cada mês.

Em Fevereiro de 1922, a pequena capela erguida na Cova de Iria foi destruída por um incêndio, atribuído aos liberais; mas o que é deveras significativo é que a imagem, que pouco antes do incêndio se encontrava exposta na capela, foi dali retirada para casa de Manuel Carreira, do lugar de Monte Redondo, que transita, todos os dias 13 de cada mês, para a Cova de Iria e vice-versa. Confessou o Manuel carreira ter visto, na noite do incêndio, luz na capela, o que não era costume, não se percebendo que, sendo ele o zelador do templo, se não importasse com o caso.

Antes de 13 de Maio de 1922, foi feita, pela imprensa monárquica e católica, uma intenssíssima propaganda para impressionar o espírito católico e conservador, tendo até o próprio Diário de Notícias, de 11 de Maio de 1922, publicado um artigo encimado por grossos caracteres, no qual se incitava o povo a visitar o local da aparição. Esse artigo era acompanhado de fotografias dos três videntes e da pequena capela e também da provisão do bispo de Leiria. Compareceram 25 a 30000 pessoas.

Em Outubro do mesmo ano, saiu o primeiro número do semanário Voz de Fátima, que foi distribuído gratuitamente e que actualmente deve ter uma tiragem de 20 000  exemplares, cuja impressão é paga por subscritores e que são profusamente distribuídos, não só em Portugal, como também no estrangeiro, fazendo a perniciosa propaganda de curas milagrosas e sobrenaturais – puras fantasias – para explorar o vulgo, sem origem na verdade, e que a superstição ampliou até o absurdo. Dirige o referido semanário o Dr. Manuel Marques dos Santos, de Leiria, tudo com a aprovação do bispo.

continuação ( 1- 2- 3- 4 ) 

terça-feira, 7 de março de 2017

Relatório do Administrador do Concelho de Ourém

(continuação) - do Relatório do Administrador do Concelho de Ourém, Artur de Oliveira Santos, a propósito das aparições de Fátima, escrito em 1924.

(Convém informar, de passagem, que a mãe da Lúcia tinha um livro - Missão Abreviada - no qual, muitas vezes, lhe lia a parte relativa à aparição de La Salette, que deve ter produzido grande impressão no espírito da pobre criança.) 

Em 13 de Novembro, nova peregrinação, mas esta muito menos concorrida. Em 9 de Dezembro do mesmo ano, a Associação do Registo Civil mandou aqui uma comissão composta dos cidadãos Augusto José Vieira, Machado Toledo e Conceição Vasques, a qual realizou na Cova de Iria um comício de protesto contra a mistificação, comício que teve fraca concorrência do povo, porque o pároco convencera a população a não comparecer. No regresso a esta vila, foram os oradores apedrejados, valendo-lhes alguns soldados da Guarda Republicana que os acompanhavam. Na véspera, no Centro Republicano de Ourém, realizara-se imponente sessão, na qual tomaram parte as pessoas referidas e que foi imensamente concorrida e os oradores ovacionados pelas afirmações de combate à mistificação da Cova de Iria.

Veio o Dezembrismo (ou sidonismo), que colocou os reaccionários à vontade, e por esse motivo levantou-se uma pequena capela no local da fantástica aparição, onde todos os meses, no dia 13, era exibida a imagem denominada de Senhora do Rosário, oferecida por um indivíduo de Torres Novas, de nome Gilberto Fernandes dos Santos, por alcunha o Bicanca, o qual, junto à entrada do templo, ia recebendo as esmolas “para a santa”, mas que, afirma-se geralmente, revertiam em benefício daquele, pois vivendo, até então, em dificuldades, conseguiu passar a viver em situação desafogada. Os padres não se conformaram com este recebedor e trataram do substituir. 

Continuaram as romarias todos os meses, umas mais, outras menos concorridas, com a exibição de imagens, irmandades, missas campais, etc., sem que houvesse da parte das autoridades a menor proibição, ou que os promotores dos actos de culto externo necessitassem requerer autorização para estes. Depois da queda do Dezembrismo, ainda se realizaram procissões religiosas na via pública, as quais, depois, lhe foram proibidas.

Em 1919, faleceu em Fátima, de pneumonia, o pequeno Francisco, e, em Maio de 1920, no hospital D. Estefância, em Lisboa, a pequena Jacinta, de pleurisia purulenta, sendo transportada da Igreja dos Anjos, na capital, para o cemitério desta vila, onde ficou sepultada no jazigo do Barão de Alvaiázere. Haviam este e outros aristocratas projectado transportar o corpo da Jacinta, processionalmente, desta vila para Fátima, o que nunca chegaram a fazer devido aos protestos do povo liberal.

Em 13 de Outubro do mesmo ano (1919), a peregrinação foi pequena, devendo ter comparecido umas 6000 pessoas. Houve diversos actos de culto externo. Antes do dia 13 de Maio seguinte, tendo o governo da presidência do saudoso republicano coronel António Maria Baptista recebido protestos vários para proibir a especulação, fui convidado por S. Ex.ª para assumir o lugar de Administrador, que aceitei com a condição de serem mobilizados todos os meios de transporte em quatro distritos, impedindo, nos dias 12 e 13, a marcha dos que se dirigissem para Fátima. Tentaram alguns promotores de Torres Novas que, apesar de tudo a peregrinação se fizesse, o que não conseguiram. Tendo conseguido autorização do comandante da força, para irem à Cova de Iria os peregrinos daquele concelho, tal não se chegou a realizar por eu me opor. Um grupo, capitaneado pelo professor do liceu de Santarém padre Formigão, tentou, à viva força, atravessar por entre as fileiras dos soldados, mas estes, apenas com desembainhar as baionetas, puseram-nos a todos em debandada. Quase ao mesmo tempo, sucedia facto idêntico noutro local, não tendo havido, porém, mais incidentes  dignos de menção. Apareceu a Lúcia vestida de branco e com um ramo de flores na cabeça, a qual foi entregue aos pais, e o chamado milagre não se verificou. Compareceram umas 1000 pessoas, que se conservaram sempre na Fátima, por ser a maior parte daquela freguesia, o que era costume, por neste dia (Quinta-Feira da Ascensão) frequentarem a igreja.

Em 13 de Junho do mesmo ano, apesar de haver festa e feira em Fátima, nada digno de menção houve na Cova de Iria, a não ser a ida ao local de algumas centenas de pessoas.


ver a continuação ( 1 - 2 - 3 - 4 )

domingo, 5 de março de 2017

Fátima, a versão oficial dos factos

Faz cem anos sobre as chamadas aparições de Fátima. Tenciono assinalar aqui o centenário com o que me ocorrer à pena. 
Começo por transcrever este texto, primeiro porque não o consegui encontrar na internet o que, se não é inabilidade minha, considero uma grande falta; segundo porque se trata dum documento único relativamente à versão oficial dos factos; terceiro porque entendo que há que recuperar a imagem do seu autor enquanto vítima duma história tão mal contada.

Artur de Oliveira Santos escreveu este relatório em 31 de Outubro de 1924. 
Extraído de Tomás da Fonseca, Fátima: Cartas ao Patriarca de Lisboa, Rio de Janeiro, Editorial Germinal, 1955,pp.365-377.



Relatório do Administrador do Concelho de Ourém

Ex.mo Sr. Governador Civil do Distrito de Santarém

Encarregado por V. Ex.ª de elaborar com a máxima urgência, um relatório circunstanciado sobre a peregrinação de Fátima e seus antecedentes, “se os promotores estão ao abrigo das leis, motivo porque não se proibiu a peregrinação, em face das ordens transmitidas, e qual a corporação encarregada do culto”, vou desempenhar-me dessa missão, em bora não possa, como era meu desejo, apresentar um trabalho completo, pois que assunto de tal magnitude levam muito tempo a tratar e faltam diversos elementos que é difícil, neste momento conseguir, tanto mais que o chamado milagre de Fátima tem  ramificação em muitos concelhos, onde principalmente impera o espírito fanático e reaccionário, sobretudo em Leiria. Esforçar-me-ei, contudo por corresponder, com honestidade e zelo, à prova de confiança que me é dada por V. Ex.ª.

Em 13 de Maio de 1917, Lúcia de Jesus, filha de António dos Santos, o Abóbora, e de Maria dos Santos Porvilheira, que ao tempo tinha 11 anos de idade, e Francisco e Jacinta, de 9 e 7, respectivamente, filhos de Manuel Pedro Marto e Olímpia de Jesus, todos residentes em Aljustrel, freguesia de Fátima, foram como era de costume, apascentar, de manhã, umas ovelhas, para a Cova de Iria, que fica a dois quilómetros da sede de freguesia e a 12 da sede do concelho. A Lúcia, que estava fixando o Sol, disse para o Francisco e Jacinta, que lhe tinha aparecido uma Senhora muito bonita em cima duma azinheira, vinda do lado do Sol, e que a convidara a aparecer no dia 13 de cada mês, à uma hora da tarde, durante o tempo de seis meses, porque tinha um segredo a dizer-lhe no mesmo sítio. Os dois parentes (de Lúcia) nada presenciaram; só mais tarde, a instâncias de interessados, se lembraram de dizer que também tinham visto a senhora. Convém aqui esclarecer que a Lúcia é, na opinião de muitas pessoas, uma doente mental, certamente devido à hereditariedade que sobre ela pesa, pois o pai morreu vitimado pelo alcoolismo, sendo considerado o homem mais ébrio da freguesia. Regressando a casa, a Lúcia repetiu aos pais e aos vizinhos o que dissera aos dois parentes.

Em 13 de Junho do mesmo ano, por ocasião da tradicional festa de Stº António, na sede de freguesia, foram à Cova de Iria umas 60 pessoas, movidas por curiosidade, e a Lúcia lá compareceu com os dois parentes a fitar o Sol e dizendo ver uma santa com um manto branco, bordado a oiro e um resplendor na cabeça. A 13 de Julho, repetiu-se a cena, tendo comparecido umas 2500 pessoas. Era o bastante para a exploração clerical. Os Boletins Paroquiais e o Mensageiro de Leiria tocaram a rebate. O milagre realizava-se! A Virgem Maria honrava Fátima com a sua divina presença – diziam eles (aqueles orgãos do clero). Era necessário – acrescentavam – comparecer ali, para ver o milagre, em 13 de Agosto. Padres e seminaristas lá foram, arrastando consigo 12 a 15000 pessoas, tendo o concelho de Torres Novas dado o maior contingente. O que não deixa de ser interessante (como ainda hoje) é que o povo da freguesia de Fátima, sendo profundamente religioso, é quase indiferente (à parte o interesse mercantil) à realização destas manifestações.

Exercia eu então o cargo de Administrador do Concelho e na madrugada do referido dia 13, tendo deixado de prevenção uma força da Guarda Nacional Republicana na sede do concelho, dirigi-me, em companhia do oficial da Administração, Cândido Jorge Alho, à povoação de Aljustrel, no intuito de trazer os três protagonistas (as crianças) para esta vila, a fim de evitar a continuação da especulação clerical, que em torno delas se estava fazendo. Junto da casa de habitação dos pais de Francisco e Jacinta, já se encontrava o padre João, pároco em Porto de Mós, falando com a mãe daqueles, e, junto a um pequeno largo, bastantes seminaristas. A Lúcia, interrogada, a meu pedido, pelo padre, reeditou o que anteriormente, havia dito. Convenci os pais de Lúcia, de Francisco e de Jacinta e os padres a consentirem que as crianças fossem interrogadas pelo pároco da freguesia de Fátima, a fim de se apurar alguma coisa de concreto, e, uma vez em Fátima, em lugar das crianças seguirem para a Cova de Iria, como esperava mais duma dúzia de padres, consegui trazê-las para minha casa, junto da minha família, num carro previamente alugado. Não faltaram ameaças de morte. Chegaram mesmo dois grupos, para tal preparados, a seguirem em automóveis, em perseguição do nosso carro, desistindo do seu intento apenas quando souberam que o carro que me conduzia e às crianças, se encontrava já nesta vila, protegido por força militar.

Quando na Cova de Iria tiveram conhecimento do caso, grupos de populares, à mistura com padres, clamaram ser preciso ir à Aldeia (Vila Nova de Ourém), matar os republicanos e os pedreiros-livres. Não tendo comparecido na Cova de Iria as crianças naquele dia, o milagre não se realizou e tudo debandou sem incidente de maior. Eram então governadores civis efectivo e substituto os srs. Drs. Manuel Alegre e Manuel Branco, respectivamente, e era minha opinião que as crianças fossem inspeccionadas por uma junta médica e internadas numa casa de educação, subtraindo-as, deste modo, aos clericais, de maneira firme e precisa, para que lhes não servissem de instrumentos de exploração. Compartilhava desta opinião o segundo daqueles cidadãos, sendo de parecer contrário o primeiro, convencido de que, deixando-se os clericais à vontade, a mistificação, com todos os seus elementos, cairia pelo ridículo.

Em 13 de Setembro de 1917, nova manifestação se realizou, tendo comparecido umas 20 000 pessoas. Os jornais monárquicos e católicos fizeram uma propaganda tenaz por todo o país, com estrondoso reclame, anunciando para o dia 13 de Outubro, na Cova de Iria, o aparecimento da Virgem, que revelaria nessa ocasião a Lúcia o “grande segredo” que lhe tinha sido confiado. Um dos concelhos onde mais propaganda se fez neste sentido foi o de Torres Novas, chegando os padres, nas igrejas, a anunciarem, como coisa certa, o milagre. Resultado de toda esta bem urdida publicidade: 30 a 40 000 pessoas dos mais diversos pontos do país, e até de Espanha, se juntaram ali, para assistirem ao famoso milagre.

Este devia observar-se das 12 para as 13 horas, mas a chuva foi torrencial, e só das 14 e meia para as 15 é que o Sol, liberto das nuvens, começou a aparecer. Foi o momento Solene em que a Lúcia gritou: Já lá está a Senhora! Fechem os chapéus e rezem! Uma parte do povo fechou os chapéus, ajoelhou, fitou o Sol, fixamente, e declarou que o astro andava à volta (“o Sol bailou”, como disse Avelino Almeida em o Século de 15 de Outubro de 1917); a outra parte, apesar de ser também religiosa, que não via senão o Sol a brilhar.

É muito elucidativo e importante o artigo do Dr. Pinto Coelho, conhecido católico, no nº507 de 16 de Outubro de 1917, do jornal A Ordem que classifica de “fantasmagoria” o chamado milagre, dizendo ter ido a Fátima, não como peregrino, mas como curioso, o que lhe valeu dos próprios correligionários as maiores censuras. A Lúcia, que andou nos braços de um homem, de grupo em grupo, teatralmente, revelou o que a Virgem misteriosamente lhe dissera: “ a guerra terminou; os soldados vêm já a caminho de casa!”. A chamada “aparição” errou lamentavelmente, pois a guerra terminou em 11 de Novembro de 1918. 

quarta-feira, 1 de março de 2017

Porque não comprei um disco do Zeca Afonso no dia 23 de fevereiro


No pretérito dia vinte e três de fevereiro dirigi-me à FNAC do centro comercial Forum, em Coimbra, a fim de comprar um Disco Compacto - fazia anos. A família, farta dos meus maus humores contra prendas, aniversários e efemérides, deixou, justamente, de me fazer lembranças em dias especiais. Os amigos, esquecidos de mim, distraídos por outros acontecimentos ou recordando o meu mau feitio, deixaram-me lembranças de mercador. E eu, lembrei-me de mim, de ter nascido e do dia em que o Zeca morreu

Lembrei-me de como para mim, quando jovem, comprar um disco era um sinal de reconhecimento pela arte de outros, um exercício egoísta de propriedade, um investimento com futuro, consumado no ato de me dirigir à discoteca, ouvir, escolher e pagar.

Acontecia sempre, na frequência que os rendimentos de estudante trabalhador e boémio me permitiam, na livraria e discoteca Almedina, Ferreira Borges, Coimbra, que eu consumava as aquisições que se resumem a um património de cerca de cinquenta trinta e três rotações. E era sempre lá, porque era atendido por uma senhora, na altura velha porque eu era novo, talvez quase cinquenta, de vestimenta simples e cabelo curto, sempre atenta ao perfil do cliente, conhecedora informada de tudo o que era editado, apreciadora da excelsa qualidade, de conversa atraente, senhora do seu gosto, verdadeira profissional do ramo, funcionária que fazia a casa em cada gesto ou palavra. 
Quantos reconheceriam essa mulher, de que não lembro o nome, se lessem este texto? 

Folheavam-se os discos e ela, atenta, sem darmos por isso, poderia despoletar o impulso que nos punha debaixo do braço a roda de vinil que iria fazer vibrar as nossas estimadas agulhas. 

Na altura, comprar um disco era um ato pensado,  ia ser um objeto de companhia durante uns bons tempos, quiçá toda a vida e até na vida da descendência ainda não pensada.

Mas pronto, os tempos são outros e a menina e o ar condicionado da FNAC são muito confortáveis e a indústria discográfica  é outra e o consumidor é outro e o tempo é outro e até eu sou outro.

Mas a menina, quando eu lhe perguntei se tinha o primeiro disco do José Afonso, “Fados de Coimbra”, não me devia ter falado assim:
- É porque morreu hoje? Ouvi no rádio quando vinha para aqui! Julguei que fosse mais velho! Tinha só cinquenta e sete anos!

No imediato congeminei, este “hoje” refere-se ao “faz anos hoje”. Mas não, a menina tinha ouvido mas não tinha percebido que já faz trinta anos e muito menos desconfiou que eu fazia mais uns tantos.

Juro que tenho por aqui mentido muitas vezes, que aqui quase tudo é ficção, que este texto é divagação fantasiosa mas, juro a patas juntas que a menina que vende discos na FNAC tem uma cultura assim.

E o que é que eu lhe respondi? Nada, desisti do fado e fui ao lado à secção de jogos. Eu que já não gosto de fazer anos, que já só faço décadas, que não gosto que me dêem os parabéns mas que me dêem do Dão, que quero renascer e voltar a ser menino, perguntei à menina da secção de jogos, colega da menina da secção de discos:
- Tem o FIFA 2017?

E então ela falou-me de fifas, placas gráficas e ronaldos e assegurou-me que o Eusébio já tinha morrido há três anos e que se eu lhe dissesse o dia em que faço anos seria capaz de adivinhar o meu signo.