sábado, 14 de abril de 2018

Mísseis para cima deles!...


Tentar desativar o perigo dum barril de pólvora com um fósforo não é lá muito inteligente: é claro que a pólvora vai explodir. 
Bombardear um arsenal de armas químicas, na minha modesta inteligência, ativaria os agentes químicos e provocaria forçosamente efeitos muito mais trágicos do que a sua utilização num combate pontual. Portanto, se tal não aconteceu, ou as armas foram retiradas atempadamente ou nunca lá estiveram.

Impressiona-me também que, dum momento para o outro, o perigoso Trump, o anedota, o burro, tenha passado de besta a bestial, só porque ativou o seu cérebro do tamanho dum tweet e as suas perigosas bombas, históricamente pulverizadoras de paz e democracia pelo mundo inteiro.

Hoje, no café, ouvindo a conversa da mesa ao lado pensei: esta gente não pensa, não lê, não aprende, não merece um mundo melhor - seu eu tivesse à mão um spray!...


sábado, 7 de abril de 2018

Um pedaço de pequeno ódio numa grande cena

A Cena do Ódio é um dos maiores desabafos da minha vida e nem sequer tive o trabalho da escrever. Tenho, portanto uma grande dívida para com o Almada Negreiros. Por estes versos, bolço pedaços de alma, limo unhas em palavras de pedra, contenho ais em carateres fechados, aconchego a minha pequenez no grande poeta, beijo os meus, ergo dedos médios aos demais, peido-me, mijo-me, cago-me, entorno o vinho, olho para mim, olho para ti, dente por dente, verso por verso e, passados tantos anos, o ódio continua pertinente e a cena é a mesma num cenário diferente. 
....
Eu invejo-te a ti, ó coisa que não tens olhos de ver!
Eu queria como tu sentir a beleza de um almoço pontual
e a felicidade de um jantar cedinho
co'as bestas da família.

Eu queria gostar das revistas e das coisas que não prestam
porque são muitas mais que as boas
e enche-se o tempo mais! 
Eu queria, como tu, sentir o bem-estar
que te dá a bestialidade!
Eu queria, como tu, viver enganado da vida e da mulher,
e sem o prazer de seres inteligente pessoalmente!
Eu queria, como tu, não saber que os outros não valem nada
p'ra os poder admirar como tu!
Eu queria que a vida fosse tão divinal
como tu a supões, como tu a vives!
Eu invejo-te, ó pedaço de cortiça
a boiar à tona d'água, à mercê dos ventos,
sem nunca saber que fundo que é o Mar!
Olha para ti!
Se te não vês, concentra-te, procura-te!
Encontrarás primeiro o alfinete
que espetaste na dobra do casaco,
e depois não percas o sítio,
porque estás decerto ao pé do alfinete.
Espeta-te nele para não te perderes de novo,
e agora observa-te!
Não te escarneças! Acomoda-te em sentido!
Não te odeies ainda qu'inda agora começaste!
Enjoa-te no teu nojo, mastodonte!
Indigesta-te na palha dessa tua civilização!
Desbesunta te dessa vermência!
Destapa a tua decência, o teu imoral pudor!
Albarda te em senso! Estriba-te em Ser!
Limpa-te do cancro amarelo e podre!
Do lazareto de seres burro!
Desatrela-te do cérebro-carroça!
Desata o nó-cego da vista!
Desilustra-te, descultiva-te, despole-te,
que mais vale ser animal que besta! 
...

um pedaço da Cena do Ódio de Almada Negreiros

quinta-feira, 5 de abril de 2018

Uma gigantesca prova de corta-mato nacional

Bush filho, quase tão inteligente como Trump,  apresentou um dia como solução para os incêndios da terra dos índios o corte das árvores da floresta. É assim a América do nosso contentamento: se aumenta a insegurança, há que munir os cidadãos de mais armas; se há fogo, corte-se o mal pela raiz, faça-se da floresta deserto.

No Portugal do nosso entretenimento, do fazer de conta que se faz, os fogos seguem o modo de pensar inteligente do amigo americano. Não chegam os carros de bombeiros, compram-se mais carros de bombeiros, não chegam mais carros de bombeiros, chamam-se helicópteros e aviões, não chegam os meios, ah! então vamos pensar...

Não pensando na  destruição da agricultura e da pastorícia, não pensando nos fatores económicos que ditaram o abandono da floresta, não pensando nas medidas de encerramentos de serviços e na inevitabilidade de concentração da atividade económica e do emprego nos grandes centros, os corredores do Grande Centro pensaram então:
- Fazer pagar, aos que por lá resistem, os males das políticas que lhes têm sido infligidas. Punam-se esses malandros! Multas pesadas para cima deles! Não têm dinheiro?  Então o que é que fazem às reformas que lhes damos?
Conclusão, pensam que podem acabar com os incêndios com a desertificação humana total. Não pensam, os imbecis, que o valor das propriedades, ou do rendimento que delas se tira, não chega para a despesa duma única limpeza anual, nem tão pouco para os custos cobrados pela sua eventual venda.

Nem os beijos dos beiços do Marcelo, nem as fotos do Costa no terreno, nem os coletes de bombeiro da Cristas, nem as imagens de fogo que passam em fundo nos comentários da tv, podem apagar as cinzas das aldeias e vilas abandonadas a troco do desenvolvimento do litoral.

Tenho uma sugestão, em vez de gastarem energias em ginásios para manterem a linha, em vez de oferecerem taças de ouro para corridas em pistas de tartan, organizem uma gigantesca prova de corta-mato nacional, chamem os desportistas de cidades, vilas e aldeias, delimitem faixas de competição para cada um, munam-nos de foices, enxadas e ancinhos, dêem o apito de partida e, no final, pesado o mato que cada um roçou, atribuam prémios. Seria uma forma lúdica e barata de pôr à prova a vontade, a verdadeira solidariedade de todos aqueles que, no dia a dia, despendem a sua força física apenas para manter a forma.

Não quer dizer que a força da autoridade não possa atenuar o problema no curto prazo. Mas, no médio prazo, o problema regressará porque notoriamente não há políticos com vontade, apoio, força ou inteligência para pôr em marcha o repovoamento do interior. Além disso, ninguém tira das suas propriedades rendimento suficiente para fazer a limpeza ano após ano. E, como não há notoriamente políticos com vontade, apoio, força ou inteligência para empreender uma reforma agrária e florestal, vão convencer toda a gente que o melhor é entregar a terra aos grandes. 

sexta-feira, 30 de março de 2018

Notícia de última hora: um tipo foi crucificado há 2000 anos


Tanta celebração, tanta compaixão, tanto sofrimento por um homem que foi crucificado há dois mil  anos. E depois, tanto fechar de olhos. tanta cumplicidade, tanta habituação a homens e mulheres  que, nos dias de hoje, são vítimas das mais variadas formas de crucificação.

Isto já para não falar dos crucificados, embora anestesiados, com as inevitabilidades do capitalismo cristão e com a indiscutível legitimidade das democracias  panfletárias.

Já a história dos folares, dos ovos, das amêndoas, da ressurreição não me diz nada. Ou melhor, deixam-me culturalmente crucificado.

Pronto, vou contar uma velha anedota:

O Evaristo, fabricante de pregos, falou com uma agência de publicidade para fazer um cartaz que aumentasse as suas vendas. E levou uma sugestão:

- Os senhores podem fazer um desenho com o Nosso Senhor Jesus Cristo crucificado, ilustrado com a frase: "Pregos Evaristo, os melhores há mais de dois mil anos!".

- Meu caro Evaristo, não acha que isso pode ser um pouco ofensivo para os cristãos? Não arranja outra ideia?

- Deixem-me pensar. Então e se for o Cristo caído junto à cruz com a frase: " Se tivessem usado pregos Evaristo, não tinha acontecido nada disto"?
- Evaristo, as mensagem publicitárias devem demonstrar entusiasmo e não tragédia ou derrotismo...
- Então... que tal um Cristo a correr para a cruz com a frase: " Com pregos Evaristo não há Cristo que resista!".

Evaristo desistiu de recorrer às empresas de publicidade mas a verdade é que nem um único pregador me saberá dizer a marca do último prego que pregou. Amén!



quarta-feira, 28 de março de 2018

A cantiga é uma arma

A minha mãe não era saloia de todo. Viveu três anos em Alfama, como criada, e contou-me que uma vez foi de lá ao hospital de Santa Maria, sozinha e a pé, a uma consulta. Trouxe de Lisboa o gosto pelas marchas populares e pelo fado.
A minha mãe gostava de cantar sozinha ou acompanhada ou, se alguém a desafiava, à desgarrada.
A minha mãe mandou-me ir à fábrica levar uma "casse-cruta" ao meu pai porque o almoço tinha sido fraco. Ficou a encerar a sala porque era a altura da Páscoa e o senhor prior iria lá a casa. Ficou a cantar um fado que encantaria a vizinhança ou qualquer outro freguês que passasse no outeiro.
Desci a vereda e, a meio dela, ouvi cantar a Maria Rosa que guardava as cabras; passei pela almuinha e encantei-me com a cantiga da Maria da Quinta que colhia tomates; cheguei à ribeira e levei no ouvido a canção da Maria da Graça que lavava roupa; segui pela tapada e cantei com o eco das quadras da Maria dos Anjos que regava o milho; às primeiras casas escutei a Maria Natividade a rogar pragas no curral dos porcos; à porta da Maria da Luz só os cães ladravam. Cheguei à fábrica e o Cossa assobiava uma melodia em alta fidelidade; no canto das suas máquinas, o Torneiras entoava as suas canções brejeiras.
O meu pai mandou-me de volta e recomendou-me que fosse a cantar para enganar o medo dos cães da Maria da Luz, dos porcos da Maria Natividade, da tapada da Maria dos Anjos, das cuecas da Maria da Graça, dos colhões da Maria da Quinta, dos cabrões da Maria Rosa.
Ao entrar em casa a minha mãe continuava a moldar o seu fado.

Isto é, era normal cantar. Teria razão o Marceneiro que dizia que as gravações e a rádio iam dar cabo do fado? Hoje quem canta ou assobia - ainda há quem assobie? - uma melodia enquanto trabalha ou caminha não é visto como normal!

Para quê cantar se há quem cante por nós? Dedilham-se os botões do aparelho e ele dá-nos música.

E, já que estou em maré de me virar contra quem não canta, também não perdoo aqueles que cantam aquela palha, sem nunca transportar uma estrofe revolucionária que dê voz à voz do povo. Poetas e cantores que não encontram poesia para um protesto, que não encontram acordes para uma insatisfação, que não musicam um grito para uma revolta (rapazes do rap dou-lhes o meu carinho!).
Nem sequer se pode perdoar a cantores de maio e abril, que foram cantando e tocando cada vez melhor, grandes produções - dizem eles - tão grandes que já não cabem no salão da associação.
Puta que os pariu e ao vosso profissionalismo musical!

Já só canto no carro e no chuveiro quando estou sozinho. Que ninguém cante comigo eu ainda aguento, não suporto é que haja sempre um voz familiar a repreender-me: ó pai, cala-te! ó pai, nem na letra acertas! ó homem, as pessoas vão saber que tu és maluco!...

Não é que eu não cante bem, não tenho é voz e tenho muito medo do sucesso.

terça-feira, 27 de março de 2018

17 mil milhões de euros



Pergunta-se: se não tivesse existido essa despesa "extra", pagar-se-ia a pensionistas e funcionários aquilo que lhes é devido?

Não, o argumento da crise, do não há dinheiro, do não chega para tudo ou do não chega para todos, continuaria a fazer parte do discurso dos ministros, dos seus comandantes e dos seus serviçais! 

Não, não nos comam por parvos, o desaparecimento de dinheiro da banca, a injeção de dinheiro nos bancos, a cumplicidade dos governantes com a cultura da crise,  a intocabilidade do sistema financeiro, são o combustível dum sistema-monstro que tem um nome, goste-se ou não: capitalismo!

Não, não nos chamem colaboradores! Somos trabalhadores de bancos, de empresas, do estado, produzimos a riqueza, temos cabeça, boca e membros, construímos o país. 

Não, nós já percebemos: para o povo nunca há dinheiro, para os banqueiros arranja-se sempre!

domingo, 25 de março de 2018

Venha um traçado de brexit com russofobia

O Meia Leca tinha uma alcunha que lhe assentava como uma luva e, de pequeno homem ou homem pequenino, outros atributos lhe cairiam como: saco de veneno, coração ao pé da boca, embusteiro, velhaco ou dançarino. Via-se em todos as feiras, arraiais e bailaricos, discussões, desordens e escaramuças.
De pé atrás observava o ambiente e o pendor dos acontecimentos e, na altura certa, cagava a sua pequena sentença ou metia o seu punho pequenino.

Quando a zaragata começava, saltitava silencioso na periferia do rodopio e, só quando o vencido já definido tombasse rendido à força maior, aparecia esquivo por entre a confusão para dar o seu pontapé ou o seu murro.

Isto, se o valentão da contenda não fosse o Enxurrada, o zaragateiro mais famoso da sua freguesia, capaz de dar sozinho a cinco ou sete duma penada. Nesse caso, ele aparecia mais notado ao lado do grandalhão, incentivando o desejado desfecho das vias de facto. 
Se ao lado do Enxurrada  apareciam outros golias da ribeira, subia-lhe ainda mais a coragem e podia até tomar lugar na linha de forcados, acabando sempre a pega atarantado à procura dum rabo que lhe calhasse.

O Enxurrada tinha um respeito frio, recíproco aliás, por Brutamontes, um tipo da sua laia que, nas aldeias da serra, era o rei da porrada. Cada um, no seu território, impunha o seu respeito e a rivalidade só aquecia se algum fazia das suas ou se cruzavam nas terras do sopé. Mas, como se temiam quando se mediam, normalmente os desacatos não iam além duma troca de bocas mais brejeiras acompanhadas pelos coros das respetivas companhias.

Nessas alturas o Meia Leca punha-se em bicos de pés na última fila mas ninguém dava importância à sua voz esganiçada.

Ora, assim contada a história, ninguém compreendeu porque
- tendo aparecido o cão do Marmanjo, um companheiro de armas do Enxurrada, falecido nas escadas da sua casa;
- tendo o Marmanjo concluído que provavelmente só poderia ter sido obra do Brutamontes, até porque havia fortes indícios que fora envenenado com queijo da serra fora de prazo;
- tendo o Enxurrada logo prometido que o serrano não esperaria pela demora;
- tendo todos os grandes da ribeira mostrado apoio ao Marmanjo e ditado ameaças contra a brutalidade do velho inimigo de estimação...
... o Meia Leca continuasse mudo e calado como se fosse seu hábito primeiro averiguar de que lado é que está a razão.



Vá lá, pequeno Marcelo, pequeno Costa, digam alguma coisa ou pelo menos escrevam um declaração para o pequenino Augusto Mateus ler à imprensa e o Paulo Rangel interpretar! Olhem que o caso não pode ser para menos, tentaram matar um russo em Inglaterra e "muito provavelmente" ou "há fortes indícios" que o veneno era russo!



- O traçado do vinho com gasosa tanto pode servir para diminuir o grau da bebida como para disfarçar o pique da pinga.

sábado, 24 de março de 2018

Modorra - porque é Dia Mundial da Poesia vou adormecer sobre um poema...



Acima de tudo, o que mais gosto na vida é de ter sono!...
Gosto de adormecer enquanto leio
Adoro adormecer enquanto faço a barba ou me penteio
Hoje mesmo adormeci a meio do banho
E saí de casa sem cortar as unhas de uma mão
Adormeço só de ver uma televisão
Caem-me as pálpebras quando me chateio
E já me aconteceu adormecer no seio dum orgasmo
Pasmo de sono quando falas
E balanceio a cabeça de tintas para as tuas conversas

Gosto de pousar a cabeça no ombro do passageiro do lado
Gosto de me deixar esticar no banco do jardim
Gosto de sestas
Gosto de adormecer ao anoitecer
Gosto de readormecer de madrugada
Gosto de dormir por tudo e nada
E até não me importava de adormecer eternamente
Se pudesse acordar na eterna noite
Para ver o sol, a horta, os filhos e o amor
E se a garrafa de gás já está a meio

Também gosto de adormecer com a bebedeira
Quero adormecer se tenho dores
Gosto de adormecer se estou contente
Dormir para mim é um descanso
Gosto de adormecer na minha cama
Gosto de adormecer à sombra do carvalho
Gostava de me deixar dormir descansado na calçada
Devia ser permitido dormir nas horas de trabalho
Gosto quando me bate o sono
Para mim uma boa palestra é um sedativo

Adormeci uma vez réu em tribunal no tempo da sentença
Gosto tanto de dormir que estou agora mesmo adormecendo enquanto estou escrevendo
Gosto de dormir como carago
O sono faz de mim um ser calado
Raramente digo asneiras enquanto durmo
Ressonar é o meu maior pecado
Gosto de vez em quando da claridade
Sobretudo se for para ver mulheres bonitas para as recordar enquanto sonho
Sobre o travesseiro
Sobre o corpo
Sobre tudo dormir

Dormir enquanto os poderosos falam de poder
Enquanto os poetas falam de poesia
Enquanto os engenheiros falam de pontes e os economistas de valias
Enquanto os artistas falam de arte
Que não há coisa mais entediante
Que um artista falar da própria arte

Dormir enquanto o país arde
Dormir enquanto a pátria se consome
Dormir enquanto se comem uns aos outros
E a mim não me comem
Porque como estou dormindo julgam que estou morto

Dormir enquanto falam os comentadores da TV
Sobretudo quando estes falam é absolutamente necessário
A bem das gerações vindouras
Que todo o país durma
E felizmente dorme
Neste preciso momento adormeci
-Golo!!!!
Nem isso me acorda
E estou com a sensação que me acarinham mãos macias
Durmo profundamente

Ah! Gosto também de adormecer enquanto me contam histórias
A do Capuchinho é a minha preferida
Embora eu goste de assinar João Ratão
Um dia adormeci quando me cantavam os anos
Adoro que me digam de manhã:
-Parece que ainda vens a dormir!
Adoro que me repreendam:
- Tu estás a dormir ou quê!?
Adoro que me ordenem:
- Tu vai mas é para a cama que o teu mal é sono!
Adoro ópio ou erva dormideira
Há fumo de cigarros nos meus sonhos
Espuma de cerveja em pesadelos
Cabelos de pestanas
De tudo há
E estas palavras só não têm nexo
Porque estou mais pra lá do que pra cá!

quinta-feira, 22 de março de 2018

Homenagem ao Bocage no Dia Mundial da Água


"A Água"
Meus senhores eu sou a água
que lava a cara, que lava os olhos
que lava a rata e os entrefolhos
que lava a nabiça e os agriões
que lava a piça e os colhões
que lava as damas e o que está vago
pois lava as mamas e por onde cago.
Meus senhores aqui está a água
que rega a salsa e o rabanete
que lava a língua a quem faz minete
que lava o chibo mesmo da raspa
tira o cheiro a bacalhau rasca
que bebe o homem, que bebe o cão
que lava a cona e o berbigão.
Meus senhores aqui está a água
que lava os olhos e os grelinhos
que lava a cona e os paninhos
que lava o sangue das grandes lutas
que lava sérias e lava putas
apaga o lume e o borralho
e que lava as guelras ao caralho
Meus senhores aqui está a água
que rega rosas e manjericos
que lava o bidé, que lava penicos
tira mau cheiro das algibeiras
dá de beber ás fressureiras
lava a tromba a qualquer fantoche e
lava a boca depois de um broche.
Bocage

segunda-feira, 19 de março de 2018

O meu pai era peixe

Não me recordo de ter visto mais de duas linhas escritas pelo meu pai. Um recado na mesa da cozinha, umas contas de bicas de pinheiros e nada mais. Via-o escrever, de mãos trémulas como as que tenho, quando parávamos ali para os lados da Venda das Raparigas e ele preenchia um folha de um livro de impressos, qualquer prática obrigatória que mais tarde viria a evoluir para os actuais discos tacográficos dos camionistas.

Quando eu tirava Bom a Matemática ouvia muitas vezes:
- Sais ao teu pai! Também era bom nos problemas!

Pelo que vi e pelo que me fizeram acreditar, vivi sempre convencido que quem escrevia as coisas bem era a mãe e que quem fazia bem as contas era o pai.
Quando o tempo de chuva e a idade de brincar me reduziam à pequena casa que era a nossa, eu vasculhava os armários e as gavetas, com esperança que a curiosidade me oferecesse alguma coisa para me entreter. Afinal de contas a casa também era minha, eu tinha o direito de saber tudo o que ela guardava.

Confesso-te agora pai que, quando a mãe propôs a compra de um fogão com forno para substituir o de dois bicos e tu disseste que não tínhamos dinheiro, eu tinha contado nesse dia as notas que estavam na caixa de sapatos e fiz as contas: aquilo dava para um fogão e para mais de meia dúzia de garrafas de gás e ainda sobrava para uma garrafa de aguardente para as constipações!

Só não entendo porque é que tu e a mãe guardaram, ainda melhor do que o dinheiro, o maço de cartas do vosso namoro que só agora, pelas sortes, encontrámos. Não chorámos, não rimos, dissemos satisfeitos um a um, talvez em coro:
- Olha que o pai escrevia mesmo bem!



 Olha pai, sabes? Eu, se não houver ondas, não me afogo!
(estou à vontade para dizer estas coisas ao meu pai porque além de peixe, ele era fish|)

quarta-feira, 14 de março de 2018

O professor anafalbeto


O professor analfabeto está ignorantemente convencido que é um bom professor.
Ele recorre frequentemente e orgulhosamente ao seu título académico e tem dificuldade em ver o ensino para além da sua disciplina. Ele desvaloriza tudo o que é extra-curricular, tenta escapar a toda a atividade escolar fora da sala de aula e é crítico tímido e costumaz de diretivas. Mas ele não questiona com os alunos o que tem para ensinar, a pertinência do que ensina ou o modo como ensina.
O professor analfabeto não lê mais do que um vulgar analfabeto, a não ser os manuais, as redações dos seus alunos, as atas que escreve e os modelos de relatórios de autovaliação.

O professor analfabeto é tão limitado que mostra orgulho em não pertencer ao seu sindicato e é a ele que atira as culpas por o seu estatuto profissional estar de mal para pior.
O professor analfabeto tem sempre razões para não se juntar aos protestos da sua classe: ou porque a greve é só um dia ou porque são três, ou porque a greve é às avaliações e devia ser aos exames, ou porque a greve é à sexta e devia ser à segunda, ou porque precisa de dar a matéria e lhe descontam um dia do mês, ou porque nem sequer tem a consciência histórica de que os direitos que tem não lhe caíram do céu. 

O professor analfabeto fica muito contente quando recebe as cartas do banco que o tratam por doutor e não gosta que o identifiquem como um funcionário, desses que ganham pouco e fazem greves como os mineiros ou os operários do lixo.

O professor analfabeto diz mal dos seus alunos, da sua escola, do seu sindicato e diz com orgulho que odeia a política. Não sabe que a sua ignorância é o instrumento de que se serve a "alta política" para conduzir os seus alunos, a sua escola, a sua classe a meros instrumentos dos seus interesses maiores. 
O professor analfabeto, de tão estéril, torna estéreis os seus colegas produtores, castra os seus alunos viris, torna o amanhã ontem, é um perfeito imbecil!

Não poderá ser do professor estéril que nascerá o amanhã! Amanhã a greve continua!



cuquice: qualquer semelhança com um texto de outrem é mera coincidência e este texto não é do Ricardo Araújo Pereira

quinta-feira, 8 de março de 2018

Limpeza da floresta: está instalada a confusão!


Não sei o que hei-de fazer!
Pelo que me dizem tenho de cortar metade dos pinheiros - estão bastos! Tenho ali uns à beira do caminho, ouvi dizer que também têm de ir. Tenho ali quatro oliveiras encostadas - lenha com elas!
Mas parece que nem lenha guardada posso ter!...
Parece que, de repente tudo está mal. Não sei se posso ter o limoeiro que tenho junto à casa!
Vai ter de ser cortada esta cerejeira que tenho aqui à frente que já vem do meu avô?
E o meu medronheiro que faz sombra à capoeira? E a mimosa que roça no curral? Será que está bem a minha camélia? E a figueira, a pinheira, o castanheiro e o carvalho que os parta?

Ou raio ou porra agora é que eu digo! Mais valia que isto tudo tivesse ardido o verão passado!
Desde que se tivessem salvado as casas e a gente! Talvez me tivesse calhado um lambuzo do Presidente!...

Isto é como eles quando nos mandam parar com a tratorinha ou a furgoneta, se eles quiserem têm sempre alguma coisinha com que implicar! Isto é que vai ser arrecadar dinheiro! Para os valores das multas de que falam, não sei se vão chegar as pensões que tenho até ir para o maneta!
Os que foram para o Brasil e para a França é que tiveram sorte! A esses ninguém vai chatear pela certa!

Só perde quem tem! Eu cortava o mato se tivesse força, eu cultivava a terra se valesse a pena, eu guardava cabras se as houvesse aqui!
Mas estão todos em Lisboa e eu pagava se tivesse a quem! E é em Lisboa que está o dinheiro e eu pagava se tivesse com quê! Esta gente de Lisboa, que decide e põe as leis, devia viver cá! Eles é que podiam resolver isto porque sabem como é que se resolvem as coisas!

Ou raio ou porra agora é que eu digo! Deram cabo disto tudo e agora a gente é que paga!
Com estas leis, folhetos, "diz que dizem", notícias e opiniões, está  instalada a confusão!
Eu não digo nada! Não estudei para tanto!Só me apetece ir para França pró pé dos meus netos!
Ou se calhar não vale a pena, vou-me entretanto!

Não sei o que hei-de fazer! Ou raio ou porra agora é que eu digo! Está instalada a confusão!

domingo, 4 de março de 2018

Masturbação mútua

Neste blogue não há assunto tabu. Por isso hoje vamos falar de sexo. Não é assunto em que eu me sinta muito à vontade porque só tenho um sexo mas farei uma abordagem com um toque de sexólogo da revista Maria e com ares de doutor Vaz de tudo.


Bem, a masturbação mútua acontece quando:
- O presidente da junta convida o presidente da câmara. Não se gramam porque são de partidos diferentes mas, na hora do discurso, ambos elogiam mutuamente os seus feitos e o público consuma o orgasmo batendo palmas.
- O presidente da associação do rancho folclórico recebe do secretário de estado do turismo a grande medalha da ordem das medalhas. O secretário costuma ridicularizar a cultura atraiçoada e o desinteresse turístico de tanto corridinho do Algarve ou vira do Minho, o rancheiro mor costuma desancar na petulância burguesa dos governantes da nação mas, na hora, ambos se enaltecem entre si.
- O autor da tese de mestrado cita uns, que por sua vez o citam a ele e, no final da biblioteca, temos um amontoado de páginas de teses que se resumem a citações mútuas de quem não tem mais nada para dizer a não ser a mesma coisa.
- O Herman convida ao seu programa o seu amigo Goucha e o amigo Goucha convida ao seu programa o seu amigo Herman.
- O Miguel dos safaris e dos tavares, o fidalgo, o filho de alguém, elogia o ministro que fez o que ele disse e o ministro justificou o que fez pela opinião do comentador, legítimo representante dos telespetadores que o adoram.
- Só o senhor Costa é que elogiou o senhor Passos e o senhor Passos não elogiou  o senhor Costa. Mas não esperem pela demora, o homem não se ficará pela onania, debaixo dos lençóis da universidade onde vai cultivar o alfobre dos seus rendimentos de ex, há-de vir a ser reitor-doutor e vir a coroar doutor honoris causa o futuro ex Costa e as televisões cobrirão o ato.

Neste país, os chamados atos públicos, redundam em prazeres de masturbação mútua! É por isso que não passam de atos de prazer! É por isso que deles não pode resultar procriação de alguma coisa!
Neste país não interessa o parceiro, podemos não gostar dele, podemos até passar a vida a dizer que nunca nos deitaríamos com ele mas, na hora, não resistimos às carícias e à excitação que nos causam, cada um a seu belo prazer. E assim vamos festejando o amor fingido, o amor que não dá frutos.

Se alguém me vier a elogiar um dia, não se espere de mim retribuição. Por bem ou por mal, por amor, amizade, desprezo ou prazer, o bajulador há-de ser - ai que me falta o verbo! -  e dessa cobrição alguma luz há-de vir à praça: aborto, rebento, braço, besta, criança, desgraça, flor ou revolução! 


Afinal até nem é difícil falar de sexo nem de masturbação mútua.

sexta-feira, 2 de março de 2018

Fãs dos Doors



Arménio era filho único e tinha tudo para ter futuro. O seu pai era o único da aldeia que não sujava o fato. De todos os putos, Arménio era o único bom na escola e o único que tinha carros matchbox e peças lego. Já moço, era o único que tinha um blusão de cabedal. Arménio comprou um rolo de fita isoladora branca, com a tesoura deu forma à letra D, fez mais dois ÓS, um R e um S e colou-as nas costas do casaco preto. No liceu todos o ficaram a conhecer e todos perguntavam o que era DOORS.
Uma amiga ofereceu-me um broche vermelho com quatro rostos, que não eram  Marx, Engels, Lenine e Mao mas que o pareciam, inspirado na capa do L.A.Woman. O retrato entornado para casar a velha amizade de infância entre mim e o Arménio.

O Bar de Cipriano fechou cedo, pouco passava das quatro da manhã. A caminho de casa parámos no pinhal a fumar e a falar – só falávamos de música. Haveríamos de ter uma banda como aquela que vimos no segundo festival de Vilar de Mouros e tocaríamos o People are Strange e o Roadhouse Blues! E tivemos: no dia seguinte a banda de Cipriano admitiu-nos.
Tivemos o palco, cercou-nos a província. Eu pus-me a estudar que nem um burro para engenheiro. Arménio estudou que nem um cábula Psicologia. Casei-me e nem no funeral do pai o vi.

Também não o vi dentro do caixão. Contou-me sua mãe que foi encontrado pela polícia, num quarto do Bairro Alto, morto de três dias. A mãe chorou-me que fui o único amigo que lhe conheceu e eu recordei-lhe que era o único menino que podia entrar na casa limpa para brincar com ele com os brinquedos limpos.

Já tenho bagagem para não me comover mas fiquei incomodado por nunca te ter devolvido a cassete do Absolutely Live. Ainda estive para perguntar à tua mãe se entre os haveres do quarto do Bairro Alto estava  o livro "Uma Oração Americana" de Jim Morrison que te emprestei. A minha companheira disse-me não ser o momento. Ficámos quites?! Não, eu devia-te este registo apesar de ter perdido o teu futuro.

quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018

Só fumo Porto



Naquele ano, toda a turma começou a gostar de Física e Química, todos os alunos começaram a ter bons resultados e olhem que não era por favor, a malta aprendia mesmo. Um professor, como sempre houve muitos: calmo, motivador, inesquecível - um Professor.

Ficámos chocados com a notícia de que o irmão Diamantino fora nomeado provincial dos Maristas e que, por tal motivo, iria deixar de ser nosso professor. Como uma das imagens do distinto mestre era o cigarro na mão, decidimos oferecer-lhe um cinzeiro e um Porto. Desembrulhado o presente, o felizardo sacou do maço e subiu as escadas do auditório distribuindo e acendendo um cigarro a um por um. Gesto bonito. Regressou ao estrado e deu solenidade ao momento com duas ou três palavras.

Olha se fosse hoje? Seria notícia nos telejornais, seria linchado nas redes sociais e apanharia um processo tal que nunca mais voltaria a ser nem bom nem mau professor.

Vivemos tempos melhores; será melhor assim; talvez não se poder fumar no jardim seja exagero; o sal e o tabaco fazem mal; comida saborosa e cigarros suaves sabem bem; vivemos satisfeitos por podermos fazer coisas que dantes nem pensar; morremos de saudade de não poder reviver coisas que já nem ao diabo lembra; lembrou-me a mim; também por esse gesto continuo a admirar o professor irmão Diamantino; mudam-se os tempos e Camões não muda; já não sei se hei-de ir escrever um poema para o quarto ou hei-de ir fumar um cigarro para a varanda; cigarros amargos nunca deram bons versos; é preferível ficar pela física e pela química...